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Saber Viver » Saber Viver n.32

06/2005

QUEM NUNCA FALHOU?

O fantasma da disfunção erétil em portadores do HIV

Não é de estranhar que uma pessoa com alguma doença transmitida pelo sexo, como o HIV/aids, enfrente problemas sexuais, como a disfunção erétil, a popular impotência. Mas, quando um portador do HIV, do sexo masculino, perde o desejo sexual ou a capacidade de manter uma relação sexual completa, com penetração, como identificar se aquela disfunção é causada por aspectos psicológicos, ou por questões físicas provocadas pelos antiretrovirais, pelo aumento de açúcar no sangue, ou por uma redução dos níveis de hormônio masculino? Esta é a grande questão. Uma vez identificado o motivo da redução da virilidade, as soluções existem e devem ser buscadas, sem preconceito. E para isso, o melhor a fazer é conversar primeiramente com o seu médico e buscar uma ajuda terapêutica.

Desde que começou a tomar antiretrovirais, Marcelo* percebeu que seu desejo sexual é quase nulo. Apesar de encarar a vida com otimismo, Marcelo sente uma culpa enorme pela mulher – infectada por ele – e pelos filhos, que já sabem da soropositividade dos pais. “Eu sei que tenho uma série de questões psicológicas para resolver, mas acredito que o meu problema de impotência esteja relacionado aos medicamentos. Antes de iniciar o tratamento, minha vida sexual era boa, hoje é nula”, conta.

 Não se automedicar

O problema vivido pelo Marcelo é recorrente nos consultórios de médicos que atendem portadores do HIV. Para o médico infectologista Roberto Zajdenverg, quase todos os pacientes homens que ele atende sofrem da chamada disfunção erétil. Principalmente os com mais de 35 anos e os recém-diagnosticados. Segundo o médico, o problema é multifatorial, ou seja, pode ter inúmeras causas, desde efeitos colaterais de alguns anti-retrovirais, anti-depressivos e ansiolíticos, até dificuldades psicológicas de conviver com o diagnóstico do HIV. “É importante que os homens percam a vergonha de conversar com seus médicos. Há medicamentos bastante eficazes no combate à disfunção erétil, porém quem toma antiretrovirais não deve se automedicar, já que a dosagem dos remédios que estimulam a ereção varia para cada paciente, de acordo com o anti-retroviral que ele usa. Alguns medicamentos contra a aids podem aumentar a ação de outros remédios, interferindo, assim, no tratamento final”, diz Zajdenverg.

Cuidar da cabeça

Às vezes o problema não está relacionado aos efeitos colaterais de antiretrovirais, mas sim aos sentimentos de medo e culpa, muitas vezes comuns aos portadores do HIV. Por isso, juntamente com o tratamento à base de medicamentos, a disfunção erétil deve ser tratada em seções de terapia. “Além da ansiedade e do medo de falhar, tão comuns aos homens, o portador do HIV acrescenta outros medos durante uma relação sexual, como o de infectar ou re-infectar a parceira ou parceiro, ou mesmo o medo da sua própria reinfecção”, explica Cláudio Picazio, psicólogo especializado em sexualidade e consultor do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde. “O soropositivo que apresenta uma disfunção erétil deve buscar um profissional que o ajude a repensar a importância que a aids tem em sua vida”.

Terapia + remédios

Eduardo* já estava quase abandonando as seções de terapia quando percebeu os primeiros sinais de melhora. “Passei a tomar um desses medicamentos contra a impotência, mas não me sentia feliz com isso. Queria voltar a transar sem me sentir dependente de um remedinho”, conta ele, que começou a fazer terapia no posto de saúde onde buscava os anti-retrovirais. “Uma noite, tinha esquecido de comprar o remédio pra impotência e, quando percebi, já estava excitado e rolou”.

 

Disfunção erétil ou impotência?

Impotência tem sido o termo tradicionalmente usado para definir a incapacidade de obter e manter ereção para que o ato sexual aconteça.

Disfunção erétil é o termo médico mais aceito para definir tal condição. É importante reconhecer que a disfunção erétil pode estar presente mesmo quando há desejo e/ou ejaculação. Entre as doenças mais comuns do sexo masculino, esta, sem dúvida, é a menos tratada. Apesar de 10 % dos homens com mais de 40 anos terem alguma forma de disfunção erétil, apenas 30% procuram ajuda.

 

Quais são as causas da disfunção erétil?

Alguns problemas de saúde, como o HIV/aids, diabetes, etc, podem levar a complicações de ordem psicológica. Portanto, deve-se tratar os dois problemas juntamente. Um indivíduo que sai de uma experiência desagradável, como a perda da ereção, na próxima relação relembra tais “fracassos” e fica esperando novamente por eles, até formar-se um círculo vicioso. O homem não tem como “fingir” uma ereção. Ou ele tem ou não. Esta responsabilidade cria uma ansiedade com a qual poucos sabem lidar sem ajuda externa.

EUA investigam cegueira em pessoas que usam remédios contra a impotência

Desde maio último, a agência do governo americano (FDA) que controla a liberação de remédios, alimentos e procedimentos médicos avalia os casos de cegueira entre usuários de remédio contra a disfunção erétil. Foram diagnosticados 38 casos de cegueira entre usuários do Viagra, quatro entre usuários do Cialis (Eli Lilly&Co) e um entre os que tomaram o Levrita (Bayer/GlaxoSmithKline). Pessoas com problemas cardíacos e diabetes parecem ser as mais propensas à neuropatia ótica isquêmica (nome técnico). Mais uma razão para soropositivos avaliarem a necessidade do uso junto com o médico.

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