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Saber Viver » Saber Viver n.09

04/2001

Casal se conheceu através da seção Namoro e Amizade da Saber Viver e reconstruiu a vida

Maria de Fátima Teles da Costa e Silva, 40 anos, descobriu ser soropositiva há 6 anos. Gilson Santos da Silva, 36 anos, descobriu que estava infectado pelo HIV em 1992. Duas coisas em comum uniram Fátima e Gilson. Além de ambos serem soropositivos, são também da mesma religião: evangélicos da Assembléia de Deus. Essa identificação fez com que os dois se casassem no dia 19 de janeiro. Eles se conheceram através da revista Saber Viver. Gilson colocou um anúncio na edição 6, através do qual pretendia formar um grupo para visitar os pontos turísticos do Rio de Janeiro. Fátima, entretanto, queria arranjar um marido. Muito decidida, ao ver o anúncio, ligou para o celular de Gilson e perguntou: “Como você é?”. Num bate-papo que durou mais de uma hora, ficou acertado o primeiro encontro.Cinco meses depois, os dois estavam casados. Fátima garante que chegou a ter visões do rosto de Gilson antes mesmo de conhecê-lo: “Foi um aviso divino”. Gilson, mais tímido, se diz feliz ao lado da mulher: “Eu e Fátima nos amamos”.

Diante de tantos anúncios que são publicados, como vocês se escolheram?
Fátima – No último dia em que estive no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, antes de transferir o meu tratamento para o posto de saúde Lincoln de Freitas Filho, no bairro onde moro (Santa Cruz), comentei com uma pessoa que queria encontrar um companheiro. Ela me deu um exemplar da revista Saber Viver e disse para eu consultar a seção Contatos Imediatos. Fiquei muito feliz. Na edição seguinte, que recebi no posto, vi o anúncio do Gilson querendo formar um grupo para visitar pontos turísticos no Rio de Janeiro e fiquei encantada. Liguei à noite para ele. Naquele momento eu tive uma visão do rosto dele. Fui direto ao assunto e perguntei a ele: “Como você é?”. Avisei que não queria conhecer nem Pão de Açúcar nem Corcovado. Queria reconstruir a minha vida. Arranjar um marido.
Gilson – Ficamos uma hora e meia no celular. Primeiro, achei o comportamento dela estranho. Foi a maior cantada. Ela foi muito direta. Para mim, também foi coisa de Deus. Nós nos conhecemos em agosto. Em janeiro, estávamos casados. Recebi várias cartas e telefonemas de outras pessoas. Peço até desculpas publicamente por não ter respondido nenhuma. Nem formei o tal grupo para percorrer o Rio de Janeiro. Quero me dedicar à Fátima e ao meu casamento.

Quando você colocou o anúncio, você pensava em arranjar um relacionamento?
Gilson – Não. O que eu queria, realmente, era ajudar as pessoas que ficam em casa, deprimidas e confinadas, arrasadas pelo fato de serem soropositivas. Eu sofri muito quando soube que estava contaminado pelo HIV. Fiquei muito deprimido. Não quis me tratar. Depois de muita insistência da minha médica, Dra. Maria Clara, da Fundação Oswaldo Cruz, comecei a tomar os medicamentos em 97. Mesmo assim, tive sérios problemas de saúde em 1998. Perdi a memória, tive toxoplasmose e cheguei a andar de cadeira de rodas. Depois fui me recuperando. Minha mãe orou muito por mim. Eu só consegui apoio na Assembléia de Deus. Diante de tudo isso, achei que com o meu anúncio eu poderia ajudar o próximo.

E você, Fátima, como reagiu ao exame positivo?
Fátima – Fiquei revoltada. Mas fui parar nas mãos de médicos maravilhosos: Dr. Guilherme (Posto Lincoln de Freitas Filho) e Dr. Luiz Fernando (Hospital dos Servidores do Estado/RJ). Nunca tive nenhuma doença oportunista. Saía sempre e tentava me distrair. Mas eu não estava satisfeita. Eu sou uma mulher que não consigo viver sozinha, sem um companheiro. Em 95, entrei para a Assembléia de Deus e comecei a mudar a minha vida.

Vocês falam muito em Jesus. Vocês se apóiam na religião para viver melhor com o HIV?
Fátima – Claro. Conviver com Aids sem Jesus não dá! A minha força, por exemplo, é divina e vem de cima. É sobrenatural.
E o seu encontro com o Gilson?
Fátima – Encontrar o Gilson foi a glória. Os meus vizinhos nunca me deram muita bola. Quando se é soropositivo, ninguém quer saber de você. A gente não tem valor. Todo mundo acha que a gente vai morrer. Pois saiba que eu já vi muita gente boazinha morrendo, de um dia para o outro. Ninguém vai ficar para semente. Nesses 6 anos, nunca tive nenhuma infecção.

Vocês se ajudam no tratamento?
Fátima – Com certeza. O Gilson é meio esquecido. Sempre lembro a ele o horário dos remédios. Da mesma forma que ele, quando me esqueço, traz o medicamento para eu tomar.

O que vocês gostariam de dizer para as outras pessoas que acham que nunca mais vão conseguir ter uma relação com outra pessoa?
Gilson – Tem muita gente que é soropositiva e acha que perdeu o valor. Estou afastado do meu trabalho, mas tenho atividades que nunca havia tido antes. Descobri a minha capacidade de ser locutor de rádio, de ser fotógrafo, de escrever e participar de algumas publicações, como a revista gospel da Bahia, onde tenho uma coluna. É importante que as pessoas busquem uma ocupação. Algo que lhes dê prazer.
Fátima – O primeiro passo é você querer viver e se amar. Se você não gostar de si, ninguém vai gostar. Segundo passo: crer em Jesus. Terceiro passo: arranjar uma pessoa que se identifique com você.

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