Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver » Saber Viver n.42

03/2008

RIR E O MELHOR REMÉDIO

Bom-humor e pensamentos positivos podem ajudar as defesas do corpo

 

Beto Volpe tinha 28 anos quando, em 1989, soube ser portador do HIV. Durante os sete anos seguintes, usou e abusou da saúde que lhe restava. Se os amigos estavam morrendo de aids, o jeito era gastar-se até a última gota. Os excessos levaram Beto a ter pneumonia, neurotoxoplasmose e candidíase no aparelho digestivo. O número de células CD4 chegou a seis. A ciência, mesmo assim, foi mais rápida do que a doença e, em 1996, colocou em circulação os primeiros anti-retrovirais. Estes encontraram Beto com apenas 34 quilos, dos 68 que costumava pesar antes. E, se o resgataram da morte iminente, afinaram suas pernas, seus braços e seu rosto. Os efeitos colaterais se multiplicaram: da lipodistrofia, que ainda não tinha nome, à osteoporose; da fratura de fêmur ao câncer no sistema linfático. Ninguém faria graça dessa soma de problemas. Ninguém, salvo ele mesmo.
“Quando eu tive câncer, já contei piada na primeira sessão de quimioterapia”, surpreende. A clínica era frequentada na maior parte por mulheres, e Beto lançou a pergunta: “Vocês sabem qual a melô do câncer de mama?”. O resultado foi excelente: ainda faltavam duas sessões e o câncer já tinha desaparecido. Diz Beto que sempre viveu assim: “Não dissocio minha vida do humor”. Ele compara sua filosofia à do Pasquim, um jornal carioca que fez oposição à ditadura militar: “O Pasquim foi muito censurado porque usava o humor; o humor é uma arma poderosa de defesa e de ataque”, define.

Aída e Geraldo
Além do humor, o amor. Beto faz questão de ressaltar a importância do apoio da família na sua recuperação. Hoje aos 46 anos, ele mora em São Vicente (SP) com os pais, Aída e Geraldo, de 73 e 80 anos. Estava pensando em se mudar quando, em 2005, seu irmão faleceu. Então, resolveu ficar de vez na casa dos pais: “Eles sempre me deram todo o apoio, não vou deixá-los sozinhos agora”, diz. Amoroso assim, Beto chegou a levar uma braçada de rosas para as mulheres que faziam quimioterapia na mesma clínica. Era o dia 8 de março, quando se comemora o dia internacional da mulher. “Eu acredito na força que a gente dá às coisas; é ela que dá a liga”, ensina ele, cuja taxa de CD4 nunca mais caiu a nível preocupante.

Bons sentimentos fazem bem à saúde
Não existem provas definitivas, mas casos clínicos indicam que o aspecto emocional tem impacto sobre a progressão do HIV. Impacto que o infectologista Gustavo Magalhães considera sempre que examina seus pacientes: “Se o paciente se deprimir, o número de CD4 pode cair; não que seja uma queda muito brusca, mas pode dificultar o tratamento”, afirma.
Gustavo atende no Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), no Rio de Janeiro, e é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. Segundo ele, mesmo uma simples insegurança, ansiedade ou tristeza pode ter um efeito danoso à saúde: “Por isso acompanho a evolução de cada paciente. Se eu notar que ele está mais triste, ou mais inseguro, encaminho para o serviço de psicologia”, explica. “Mas se houver necessidade de medicamento anti-depressivo, encaminho para o serviço de psiquiatria”.
Gustavo observa grande resistência na maioria dos pacientes a procurar um psiquiatra: “Eles falam que é médico de maluco, mas o psiquiatra é praticamente o médico dos sentimentos”, explica. A importância do acompanhamento psiquiátrico se percebe ainda pelos efeitos colaterais dos anti-retrovirais: “O efavirenz, por exemplo, não é a causa da depressão, mas pode aumentar o estado depressivo”, afirma Gustavo.

Planos para 2008
Beto Volpe ainda não procurou um psiquiatra: “Quando tive depressão, combati na Internet”, revela. “Em 1997, fiquei deprimido pelos efeitos colaterais dos antirretrovirais. O que me resgatou foi uma sala de bate-papo sobre HIV”, lembra. Beto faz psicanálise uma vez por semana, mas começou há apenas um ano. Decidiu fazer quando notou que a atividade no Grupo Hipupiara, do qual é presidente, estava atrapalhando sua vida privada. “Agora, estou procurando agendar o lazer”, conta. “A praia, o sair para tomar alguma coisa”, continua. A ONG presta apoio aos portadores de HIV da Baixada Santista. Em 2008, Beto quer levar o trabalho adiante, mas sem comprometer sua qualidade de vida. O desafio parece mole para quem faz 1050 abdominais por dia, sendo que, quando começou, não passava de cinco: “Se eu quiser andar, tenho que me exercitar”, expõe.

Compartilhe