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Circulador » Circulador n.05

10/2012

Saúde da Família

Aposta na aproximação entre profissionais e comunidades

Integrar ações que visam a qualidade de vida e a cidadania, adaptando-as às realidades locais, faz parte do dia-a-dia das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) no município do Rio de Janeiro. “A ideia da Saúde da Família vem do movimento social pela Atenção Primária à Saúde, que busca a aproximação entre saúde e população”, explica Nulvio Lermen Júnior, coordenador de Saúde da Família, da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro – SMSDC-RJ. Para chegar a essa articulação, Nulvio destaca o papel do território – base da promoção da saúde. “No Brasil, de 1993 para 1994, a estratégia, na época denominada programa, começou a levar a saúde para a população através de profissionais que conheciam os problemas de cada família da comunidade, fazendo o acompanhamento dessas famílias por um tempo maior”, diz.

Aprender cantando: Apresentação de Natal do Coral Liga dos Cantantes, em 21 de dezembro de 2011, no pátio da prédio da Prefeitura do Rio de Janeiro.

O Coral Liga dos Cantantes, da Clínica da Saúde Zilda Arns no Complexo do Alemão, é uma prova de que a proximidade do profissional com os moradores gera ações que favorecem o conceito amplo de saúde. O Coral leva os benefícios da música para 50 crianças e adolescentes que são acompanhados pela Equipe de Saúde da Família da unidade. A musicista Gisele Fernandes, regente do coral, observa um maior desenvolvimento dos aspectos cognitivo, afetivo e social dos participantes e destaca o interesse despertado para a leitura. “Crianças com idade de 9 e 10 anos que ainda não sabiam ler estão mostrando seu desenvolvimento e interesse pela leitura. Os pequenos de 4 a 7 anos, que ainda estão no processo de aprendizagem de leitura e escrita, fazem questão de acompanhar as músicas com a letra impressa, e percebemos que, com isso, eles associam com mais facilidade a letra da música às palavras do papel”, afirma Gisele.

VALE A PENA! Esperamos que as crianças consigam conquistar sonhos e objetivos muito maiores do que elas pensam hoje, que superem as situações de violência que presenciaram, que novas relações sejam construídas através do conhecimento e que elas promovam saúde cantando! Gisele Fernandes (foto ao lado), regente do Coral Liga dos Cantantes, da Clínica da Saúde Zilda Arns.

Para Cléo Lima, pedagoga em saúde e técnica da Coordenação de Educação e Saúde da Superintendência de Promoção da Saúde da SMSDC-RJ, o coral tem proporcionado, entre outras coisas, a diminuição de comportamentos violentos, o estreitamento de vínculos entre as crianças, famílias e cuidadores e o melhor rendimento escolar. “Além disso, as crianças e familiares tiveram a oportunidade de conhecer locais como a UERJ, durante as apresentações do coral, trazendo um reconhecimento de cidadania para a comunidade”, conta. Cléo foi a idealizadora do projeto. A ideia da formação de um coral surgiu após a criação do Espaço Lúdico Liga dos Brincantes em janeiro de 2011, no qual as crianças e moradores do Complexo do Alemão, sem limite de idade, são acolhidos dentro da unidade de saúde através de atividades como resgate de brincadeiras e contação de histórias.

Cléo Lima, pedagoga, e crianças durante oficina no Espaço Lúdico Liga dos Brincantes, no complexo do Alemão.

Ações comunitárias

A Clínica da Família Maria do Socorro, na Rocinha, também aposta em ideias simples que envolvem os moradores em ações de promoção da saúde. “Nossa Clínica é muito grande e heterogênea. Nela atuam 11 equipes da Estratégia Saúde da Família, que desenvolvem ações comunitárias, como grupos de idosos, diabéticos, hipertensos, saúde da mulher, planejamento familiar e tabagismo. Já houve, inclusive, parceria dos profissionais da clínica com uma rádio da comunidade”, diz o médico da família e comunidade Marcos Goldraich. Para Marcos, o diferencial do trabalho está exatamente no contato com as pessoas, e não com as doenças. “Como médicos de família e comunidade temos a oportunidade de fazer parte da vida da população. Acompanhamos as famílias desde a concepção, fazemos o pré-natal das mães e pais, o acompanhamento dos bebês, a orientação dos adolescentes e o cuidado das pessoas com doenças crônicas e agudas. Participamos também do final da vida, oferecendo cuidado às pessoas próximas da morte, para que esta seja o mais humana possível, tanto para o paciente, como para sua família”, resume.

Priorizar o território

A Estratégia Saúde da Família é uma mola propulsora da intersetorialidade, principalmente através das Clínicas de Família, mas é também um grande desafio. Cláudia Nastari, coordenadora da área de planejamento 3.2, da SMSDC-RJ, que abrange 23 bairros da zona norte do Rio, explica: “O Saúde da Família dá visibilidade às ações da população em seu território. Nós apoiamos, institucionalizamos e criamos possibilidades para as parcerias acontecerem. Mas para isso, a equipe técnica precisa entender que as necessidades e prioridades vêm de dentro dos territórios, precisa desenvolver sua capacidade de escuta e acolhimento. Essa humildade profissional é o maior desafio. O papel dos técnicos é se articular, usando suas competências, com os equipamentos governamentais, não governamentais e religiosos para, a partir de discussões paritárias, construir um novo cenário com responsabilizações pactuadas em todas as ações”.

Jovens do grupo de teatro da Clínica da Saúde do Jacarezinho, em parceria com o Caps AD Raul Seixas, apresentam peça no teatro Noel Rosa – UERJ.

Parcerias no Jacarezinho

A experiência da Estratégia Saúde da Família no Complexo do Jacarezinho mostra como o trabalho intersetorial pode gerar bons resultados. Em uma das áreas de menor IDH da cidade, carente de equipamentos governamentais, a articulação entre Educação, Saúde, Assistência Social e lideranças locais tem possibilitado melhorias na região e o resgate da autoestima dos moradores, que passaram a perceber a saúde de modo mais amplo. Nos últimos dois anos, vários projetos estão sendo realizados graças à mobilização da comunidade e de parceiros. “Em 2011, construímos, em parceria com a Universidade Gama Filho, o Fórum de Determinantes Sociais do Jacarezinho, rico em trocas e compromissos, com a presença das lideranças locais e diversos órgãos do governo”, comemora Cláudia, citando mais algumas vitórias: uma Clinica da Família, a remodelação do CMS (totalizando 11 equipes da ESF); uma Escola de Desenvolvimento Infantil e um fórum mensal de saúde mental. Ações voltadas para os usuários de crack são, no momento, o foco central do trabalho da ESF, segundo a coordenadora, pois vai de encontro com a principal prioridade definida pela comunidade do Jacarezinho. “Temos muito ainda a caminhar”, finaliza.

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