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Circulador » Circulador n.04

12/2009

Saúde para todos

Construindo parcerias para promover a saúde da população negra

Pais e mães de santo que integram práticas de religiosidade aos princípios do SUS estiveram reunidos no I Seminário Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Controle Social de Políticas Públicas de Saúde

A inclusão da população negra na formulação de políticas públicas é um desafio em um país como o Brasil, que aboliu a escravidão há pouco mais de 100 anos e ainda tem grande dificuldade em identificar e enfrentar o racismo. Na área da saúde não é diferente, sobretudo no que diz respeito à redução do preconceito e da mortalidade.
Apesar dos desafios, as conquistas são muitas – é o que mostra a Rede Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Saúde, que em agosto de 2009 promoveu o I Seminário Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Controle Social de Políticas Públicas de Saúde.
Prestigiado por representantes das comunidades de terreiro, pais e mães de santo que integram a prática da religiosidade aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), o evento ressaltou a importância do controle social para a promoção da saúde da população negra.
“Ao todo, somos 36 núcleos, espalhados por 22 Estados. Entendemos que a política de saúde ocorre em nível municipal e por isso trabalhamos diretamente com a gestão local, em parceria com as Secretarias Municipais de Saúde, sempre interligados por uma coordenação nacional”, informou o presidente da Rede, José Marmo.

Para José Marmo, presidente da Rede Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Saúde, é preciso fortalecer a inclusão dos terreiros nas políticas públicas de saúde

O saber dos terreiros

Valorizando as potencialidades da população negra, o Seminário reforçou a relação entre religião e saúde e debateu a participação dos terreiros na definição de políticas públicas.
Em sua palestra, a coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC-RJ), Viviane Castello Branco, destacou princípios da Política Nacional de Promoção da Saúde que estão presentes nas tradições afrobrasileiras: saber popular, identidade cultural, visão holística da saúde, celebração da vida. “É preciso integrar os saberes. As comunidades de terreiro precisam das políticas de saúde e as políticas de saúde precisam das comunidades de terreiro”, considerou.
SUS discute a equidade em saúde da população negra Inúmeros relatórios e documentos descrevem os agravos à saúde da população negra, que podem ter origem genética, como a anemia falciforme, ou estar associados a desigualdades sociais e ao racismo. Enfrentar estes desafios e promover a equidade na atenção à saúde é a missão do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do município do Rio de Janeiro, criado em 2007.
“A Política Nacional de Saúde da População Negra já existia e nós precisávamos refletir sobre essa questão também na esfera do município. Então, criamos o Comitê. A política ainda não estava regulamentada, mas nós já estávamos refletindo sobre ela, com a participação efetiva de várias representações da sociedade”, apresentou Louise Silva, coordenadora de Educação em Saúde da SMSDC-RJ e coordenadora do Comitê. As reuniões do Comitê estão abertas a todos os interessados e ocorrem toda segunda terça-feira do mês, às 14h, na Secretaria.

“É impraticável pensar e promover a saúde em meio ao preconceito, seja de raça, cor, idade, religião, gênero ou orientação sexual”, Mãe Beata de Iemanjá, integrante do grupo Criola, ONG direcionada a mulheres negras.

Quesito raça/cor
Durante muitos anos, o desconhecimento sobre a população negra prejudicou o acesso à saúde: na década de 70, o Censo sequer abordava informações sobre etnia/raça/cor. “A reestruturação do quesito etnia/raça/cor requer vários passos e o primeiro é a reformulação das fichas de atendimento dos serviços de saúde. Estamos trabalhando para incluir esses dados em todos os impressos oficiais, adequar os sistemas de informação e aperfeiçoar os registros referentes à saúde desta população”, anunciou a enfermeira Monique Miranda, da Coordenação de Educação e Saúde da SMSDC- -RJ e co-coordenadora do Comitê.

Ideias e perspectivas

Muitos outros projetos também estão em andamento.Um exemplo é a Caravana do Axé, que promove alimentação saudável e prática de exercícios, sempre valorizando a cultura dos terreiros. Louise Silva contou, no Seminário, que a ideia surgiu quando ela começou a frequentar estes espaços religiosos: Percebi a necessidade de ampliar a integração dos terreiros com os serviços de saúde da área em que estão inseridos, possibilitando a criação de espaços privilegiados para trabalhar os conceitos de respeito à diversidade religiosa, à prevenção e à promoção da saúde?

 

"Ser negro no Brasil não é fácil. Tenho que acreditar todo dia em uma mentira nova – todo mundo é igual, todo mundo tem o mesmo direito – mesmo sabendo que em nosso país a hierarquia da cor dá privilégios. Sem prestígio, sem perspectivas de qualidade de vida, o homem negro segue eternamente em busca da democracia racial". Umberto Alves

Raio-X da desigualdade

A taxa de mortalidade materna é 36% maior na população negra

A taxa de mortalidade infantil entre brancos é de 11,9 por cada mil nascidos vivos.

Para os negros, esta taxa é de 12,8 por mil

A proporção de mortes por causas mal definidas é 40% maior entre negros

Para cada morte por causa violenta entre pessoas brancas ocorrem duas mortes

entre a população negra

* Fonte: Superintendência de Vigilância em Saúde/SMSDC – RJ (2006)

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