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Saber Viver » Saber Viver n.29

08/2004

Sexo em tempos de AIDS

Tabu de todos os tempos, o sexo virou palavrinha fácil,

principalmente após o surgimento da aids. Mas para as pessoas soropositivas, fazer sexo não tem sido assim tão simples.

Quem não teve ao menos um problema sexual após o diagnóstico positivo para ao HIV? Está certo que tem gente que consegue lidar com isso de forma tranqüila, mas muitos não conseguem vencer suas barreiras e carregam consigo questões sexuais mal resolvidas por anos a fio. Mas, verdade seja dita, quem pode ser feliz sem uma vida sexual satisfatória?

O assunto é polêmico mesmo. Há quem decida se abster por completo de ter relações sexuais, há quem saia por aí fazendo sexo de forma desenfreada e sem o uso do preservativo, há quem só busque parceiros soropositivos, há quem busque uma relação estável com mais intensidade, há quem tema infectar o companheiro, há quem queira infectá-lo, há quem conte logo no primeiro encontro, há quem demore dias, meses, anos e há quem nunca conte.

 

Prazer sem culpa (?)

“O prazer é muito culpabilizado na nossa sociedade e o HIV vem justamente reforçar essa culpa que todos nós, positivos ou não, já carregamos por sentirmos prazer”, diz o psicólogo e sexólogo Cláudio Picazio. “A maioria das pessoas soropositivas que atendo tem medo de infectar o parceiro. Muitas vezes um parceiro que ainda nem existe. E o conselho que eu dou é que podemos contaminar o outro com muitas coisas boas e não só com o HIV”, continua Picazio, que sempre reforça que o uso da camisinha pode evitar a infecção ou reinfecção pelo HIV.

Desde que Renato* se descobriu soropositivo, em outubro de 2002, nunca mais fez sexo. “Não consigo mais me relacionar, está terrível. Não sinto a menor vontade, parece até que fui castrado”, conta. “Tenho medo do contato sexual, da reinfecção ou de coisa pior”. O desespero de Renato é comum entre soropositivos recentes, mas costuma passar com o tempo. Foi o caso de Pedro*, que é portador do HIV há 16 anos, e também sofreu muito no início. “Não queria nem beijar”, diz ele, “depois fui aprendendo a tomar as precauções necessárias e hoje considero minha vida sexual normal”.

 

Preservativo na hora H

Ivonete* não encontrou tantos problemas para se relacionar sexualmente com outros parceiros após a morte do marido há três anos. “Trabalhei muito a minha cabeça para poder ter uma transa boa com meu novo namorado. Freqüentando um grupo de mulheres, aprendi que o fato de ser soropositiva não significa ter que deixar de fazer sexo”, conta ela. Ivonete, no entanto, sente dificuldade em negociar o uso da camisinha com o namorado, que desconhece o fato de ela ser portadora do HIV. “Ele sempre insiste para transarmos sem camisinha, mas eu digo que não sei o que ele faz quando está longe de mim e que por isso devemos usar sim. Às vezes ele se irrita um pouco, mas acaba cedendo”, revela Ivonete, que vem experimentando com o namorado o uso da camisinha feminina. “Eu e ele sentimos mais prazer”.

Soraia* já namorava há sete anos quando, há oito meses, descobriu ser soropositiva. O namorado, soronegativo, deu a maior força: “Ele me disse que não teria problemas e passamos a usar camisinha, que antes não usávamos” diz ela. “Essa é a parte chata”, conta, “toda vez que coloco a camisinha nele, lembro que sou soropositiva, que nunca mais poderemos transar sem camisinha e penso na impossibilidade de ter filhos. Vem tudo à cabeça em questão de segundos e muitas vezes perco o desejo ali naquela hora”.

Na hora do sexo oral, o uso da camisinha parece ser mais complicado, principalmente se o parceiro não sabe do HIV. Alguns até tentam evitar essa prática, mas nem sempre conseguem e acabam deixando a camisinha de lado. “Não há como fazer sexo oral com camisinha”, revelou Humberto, portador do HIV, durante um debate sobre sexo realizado no Pela Vidda/Rio.

 

Lipodistrofia

Vincos no rosto, pneuzinho na barriga, pernas finas, ausência de bunda, tudo isso acaba inibindo o portador do HIV a se entregar sexualmente a uma pessoa recém-conhecida. “Já encontrei dois parceiros que me perguntaram se eu era portador do HIV, por causa da lipodistrofia”, conta Pedro. “Mas depois percebi que era muito em função da relação de vergonha que eu tinha com meu corpo, e as pessoas notavam. Hoje me entrego sem timidez e ninguém me pergunta nada”.

 

Procure ajuda

Para os que sentem dificuldades em manter relações sexuais como antes da infecção pelo HIV, Cláudio Picazio dá um conselho: procure um grupo de ajuda ou mesmo um terapeuta. “A aids não pode vir na comissão de frente da sua vida. Se a pessoa consegue colocar o HIV, um vírus muito pequeno, no seu tamanho devido, vai lidar melhor com todas as situações que envolvem a aids, inclusive sexo”, diz Picazio. “Assim ela não vai chegar perto do outro numa posição de vítima e dificilmente será rejeitada. E se for, tem que saber que o outro estará rejeitando o HIV e não a ela” conclui. SV

• nomes fictícios

 

NA HORA H, USE CAMISINHA

Muitas pessoas resistem a usar preservativos e costumam minimizar sua importância.

Por isso pedimos ao infectologista Estevão Portela para esclarecer por que seu uso é fundamental em todas as relações sexuais.

Numa relação, quando ambos são soropositivos, o uso do preservativo previne a reinfecção, que é perigosa porque pode levar a uma aceleração da deficiência imunológica, facilitando a ocorrência de doenças oportunistas.

Se um dos parceiros for portador de cepas do HIV com resistência aos anti-retrovirais, há ainda a possibilidade da reinfecção prejudicar a eficácia do tratamento do outro.

A secreção eliminada antes da ejaculação pode conter vírus e oferece risco, embora menor, de infecção. Por isso a camisinha deve ser colocada no início da relação.

O sexo oral também apresenta risco de infecção, embora menor do que as relações anais/genitais. O correto é usar preservativo também durante o sexo oral ou evitar contato demorado da boca com a glande e principalmente com o esperma.

Quando a carga viral no sangue está indetectável significa que há uma quantidade pequena de HIV no sangue, mas isso não quer dizer que a quantidade de HIV no sêmen também é baixa. Portanto, existe o perigo da contaminação. Além disso, todos estão sujeitos a apresentar elevações transitórias da carga viral.

Não se pode esquecer que relações sexuais sem proteção podem levar a diversas doenças sexualmente transmissíveis que podem ser de difícil tratamento, principalmente para aqueles que têm o sistema imunológico debilitado.

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