Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Sexualidade, uso de preservativo e direito reprodutivo

Valdi Craveiro Bezerra
Clínico de Adolescentes (Hebiatra), Psicoterapeuta, Terapeuta de Família.
Coordenador do ADOLESCENTRO Centro de Referência, Pesquisa,
Capacitação e Atenção à Adolescência e Família – DF

Se trago as mãos distantes do meu peito,
é que há distância entre intenção e gesto.

(Fado Tropical – Chico Buarque & Ruy Guerra)

Apesar dos três temas do título possuírem uma estreita correlação óbvia no discurso, a maneira como nós, governo, profissionais e sociedade, agimos em relação a cada um deles é de forma totalmente dissociada e perigosa.

Entendemos a sexualidade como o exercício da vida com prazer. Exercemos nossa sexualidade quando intencionalmente colocamos prazer em nossas relações com o mundo e com nós mesmos. O prazer é um ato intencional da subjetividade humana, o qual consiste em dar um sentido e um significado específico a uma sensação, que pode ser agradável, desagradável ou neutra. No entanto, o prazer não se reduz a esta sensação. Enquanto para alguns a sensação de queimação intensa de uma pimenta malagueta pode ser uma experiência extremamente desagradável, para outros a mesma sensação se constitui num imenso prazer. O que diferencia as duas experiências é o significado dado pelo sujeito da experiência a esta sensação. Do mesmo modo, apesar do estupro ser uma relação sexual, a vítima não exerce sua sexualidade nesse momento. O prazer produzido em um relacionamento sexual consensual parece até o momento não ter precedentes comparativos, mesmo levando em conta seus efeitos colaterais. A gravidez não planejada e as DSTs, tendo a aids como a mais recente e mais temida, são seus efeitos colaterais mais comuns e perseguem a humanidade até os dias de hoje. Enquanto o homem paga o preço das DSTs, a mulher sofre com os dois. A gravidez não planejada sempre foi o preço que a mulher, casada ou não, teve que pagar pelo exercício de sua sexualidade, ou, quando pior, por sofrer o exercício da sexualidade do homem pela violência ou por seus “deveres matrimoniais”, o que de fato é a mesma coisa.

As tentativas para se evitar uma gravidez na história da humanidade vão desde o coito interrompido, provavelmente a maneira mais antiga, que mesmo interrompido era e continua sendo pecado, passando por vários métodos de barreira, como as primeiras camisinhas utilizando intestinos de animais, até os métodos mais eficientes atualmente, como a camisinha de látex, os contraceptivos orais e o DIU.

A camisinha, quando usada corretamente, isto é, sem falha no uso e no acondicionamento, oferece uma proteção de 99% contra a aids e de 100% para gravidez não planejada. Considerando as possibilidades de ruptura e deslizamento intravaginal, o uso da camisinha durante um ano oferece uma proteção para a gravidez não planejada de 97% se usada de forma correta, e de 86% se for usada sem muitos cuidados (Trussel e col, 2001). Este mesmo autor calculou que a economia feita com o uso de camisinha por ano por adolescente sairia em média de 946 dólares para o setor privado e de 525 dólares para o setor público. O custo anual calculado por adolescente para uma gravidez foi de 1.079 dólares e de 188 dólares com tratamento para DST, num total de 1.267 dólares para o setor privado e de 677 dólares (541 para gravidez e 137 com tratamento para DST) para o setor público. (Trussell e col, 1997a e 1997b). A conclusão lógica é que o uso da camisinha é seguro, eficiente e muito econômico para qualquer governo que invista em seu uso, no entanto, tanto a gravidez quanto a aids estão aumentando na faixa etária da adolescência. Costumamos responsabilizar os adolescentes por estas taxas, sem nos perguntarmos por nossa participação neste fenômeno.

Neste momento entramos no chamado direito reprodutivo, o que significa que temos o direito de escolher se queremos ou não ter filhos. Para garantir uma escolha ou outra, lançamos mão dos métodos contraceptivos, e a camisinha é um deles. Com isso fechamos o ciclo: sexualidade, uso do preservativo e direito reprodutivo. Até agora parece uma simples lógica matemática, mas a questão é que, em outras palavras, direito reprodutivo quer dizer que nós, inclusive “nós adolescentes”, temos o direito de nos relacionarmos sexualmente sem termos que pagar com uma gravidez não planejada ou uma doença sexualmente transmissível pelo pecado de exercermos nossa sexualidade. A questão é que, na verdade, não concedemos esse direito aos nossos filhos adolescentes.

Se nossa preocupação como pais, profissionais de saúde, educadores, governo e sociedade em geral fosse de fato evitar os danos causados por uma gravidez não planejada ou uma DST/aids, o uso da camisinha como solução para diminuir estes enormes problemas de saúde pública deveria ser estimulado e principalmente viabilizado. A camisinha deveria ser distribuída segundo a necessidade de cada um, em todos os locais de encontros, como as escolas, quartéis, locais de diversão, e principalmente nos serviços de saúde.

Apesar das campanhas freqüentes para o uso da camisinha, nós, profissionais da saúde, educação e governo, sistematicamente desenvolvemos formas de distribuição que são verdadeiras maratonas cheias de constrangimentos, que parecem planos bem elaborados para afastarmos nossos adolescentes do exercício de uma sexualidade protegida. Para um adolescente obter 6 camisinhas, dependendo do serviço de saúde, deverá marcar uma consulta com um médico ou enfermeira e ser cadastrado, o que significa declarar que já está tendo relacionamento sexual. Toda esta dificuldade criada é justificada pela necessidade de fazer uma educação sexual e de obter uma estatística. Esta desculpa, no entanto, pode estar encobrindo a verdadeira razão dessa estratégia, que é o controle ao exercício da sexualidade do adolescente.

Em agosto de 2003, o governo lançou um projeto dos Ministérios da Educação e da Saúde para disponibilizar camisinhas para colégios da rede pública de ensino, que comprovarem que seus alunos já recebem educação sexual. Imediatamente surgiram “profissionais” questionando a distribuição, afirmando que isso seria um estímulo à relação sexual desenfreada, ou que a distribuição por si só não resolveria o problema, e outras asneiras mais. Não duvidamos que a educação sexual seja a estratégia mais importante e eficiente. A questão é que a mesma não sai do papel há mais de 20 anos, pela mesma necessidade de controle da sexualidade do outro. Com isso, criaram-se dois problemas. O primeiro é que alguns de nossos filhos adolescentes, seguindo nossos passos iniciados com o advento do contraceptivo oral na década de 60, já saltaram do avião e já estão tendo relações, queiramos ou não. Em plena queda livre, nós ficamos discutindo sobre quem empurrou, se realmente era a hora de saltarem, ou concluímos que está tudo errado e que não deveriam ter feito isso, que deveriam ter tido aulas de pára-quedismo antes. Nessa situação, o mais sensato e honesto que temos de fazer é perguntar: “alguém sabe como abrir um pára-quedas?”. — Nossa obrigação é garantir que nossos adolescentes cheguem são e salvos até embaixo, e com eles vivos, sem danos, discutirmos todas as outras opções. Em outras palavras, devemos proceder com a distribuição de camisinhas de forma livre e sem constrangimentos – o pára-quedas. O outro problema diz respeito à turma que ainda não subiu no avião. São os adolescentes que ainda não iniciaram sua atividade sexual e, se continuarmos a não fazer nada a respeito, como educação para um exercício saudável da sexualidade sem problemas, inexoravelmente, ficarão na mesma situação dos que já estão pulando.

No Adolescentro, disponibilizamos a camisinha na sala de espera em uma caixa confeccionada para este fim, para quem quiser pegar seu preservativo. Além dos adolescentes, os pais, mães, tios, avós pegam camisinhas para outros filhos, sobrinhos, netos e amigos. A cada dia somos gratos a essas pessoas maravilhosas, nossos verdadeiros multiplicadores no combate contra a aids e a gravidez não planejada, por fazerem nossa tarefa. Em nenhum momento, nenhum pai ou mãe questionou nossa atitude. As únicas reações contrárias a esta forma de distribuição vieram dos profissionais. O mais interessante é que, com este fornecimento de livre demanda, as questões sobre métodos contraceptivos aumentaram em todas as consultas. Se um adolescente faz da camisinha um balão de festa, de duas uma: 1) Este ato é um ótimo indicador de uma dificuldade na sua relação com ele mesmo e com o mundo, aí nós podemos ajudá-lo, ou 2) será pura gozação (merecida) sobre nossa maneira compulsiva de querer controlar a sexualidade dos outros.

Referências bibliográficas:
TRUSSELL J, KOENIG J, ELLERTSON C, STEWART F. (1997a) Preventing unintended pregnancy: the cost-effectiveness of three methods of emergency contraception. Am J Public Health, Jun; 87(6):932-7
TRUSSELL J, KOENIG J, STEWART F, DARROCH JE (1997b) Medical care cost savings from adolescent contra-ceptive use. Fam Plann Perspect, 1997 Nov-Dec;29(6):248-55, 295.
TRUSSELL J, WIEBE E, SHOCHET T, GUILBER E. (2001) Cost savings from emergency contraception pill en Canada. Obstet Gynecol, May;97(5Pt1):789-93.

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