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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.03

12/2005

O diagnóstico tardio do HIV impede que pessoas com aids cheguem à rede pública de saúde para tratamento

Em junho de 2005, uma unidade de saúde do Rio de Janeiro, após receber os resultados de exames anti-aids feitos no início do ano, telefonou para 15 pessoas cujos diagnósticos foram positivos para o HIV. Infelizmente, quatro já haviam morrido.

Uma mulher de 64 anos procurou um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) da mesma cidade, em dezembro do ano passado, após o marido falecer com suspeita de aids. Foi colhida amostra de sangue imediatamente, mas o resultado (positivo) só chegou às mãos da pessoa em junho, seis meses depois.

Em agosto de 2005, outra mulher chegou a um hospital público no Rio com suspeita de aids. O médico sugeriu que ela procurasse um CTA. Os profissionais do Centro de Testagem e Aconselhamento reconheceram os sintomas da doença e recomendaram que a paciente fosse a uma emergência pública para ser internada e tentar obter o diagnóstico mais rápido. A doença foi confirmada, a paciente colheu sangue para o exame confirmatório e foi internada para tratar as infecções oportunistas. Até hoje, ela não recebeu o resultado confirmatório.

Essas histórias verídicas refletem os problemas que os profissionais de saúde do Rio de Janeiro vêm enfrentando para evitar o diagnóstico tardio do HIV. Enquanto não se resolve o problema da sobrecarga da rede pública de saúde, alguns começam a defender a utilização de testes rápidos em CTAs para casos sintomáticos como medida de urgência. Assim, o paciente recebe tratamento profilático de infecções oportunistas e aconselhamento sobre prevenção do HIV. Entretanto, essa reivindicação gera polêmica. Nem todos os profissionais de saúde sabem utilizar o teste rápido, e a emenda pode sair pior do que o soneto. “O teste rápido é utilizado em maternidades e em locais de difícil acesso, como municípios da Amazônia, mas estamos pensando seriamente em incluir o Rio de Janeiro como um local de difícil acesso, uma vez que a população está com dificuldades para obter os resultados dos exames”, afirma o coordenador do Programa Brasileiro de DST e Aids, Pedro Chequer. A portaria do Ministério da Saúde que regulamenta a utilização dos testes rápidos (nº 34 de 28 de julho de 2005) autoriza o uso em “serviços de saúde localizados em áreas de difícil acesso”. E, segundo a portaria, o Ministério da Saúde “se responsabilizará pela aquisição e distribuição dos testes”.

DEMORA DE ATÉ 7 MESES
No Hospital Universitário Grafrée e Guinle (RJ), de responsabilidade Federal, não há exames para diagnóstico do HIV há 6 meses, por falta de kits. No Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Rocha Maia, na zona sul do Rio de Janeiro, problemas de atraso na entrega do diagnóstico são freqüentes. Segundo dados divulgados pelo serviço, durante o Encontro Estadual de CTAs do Rio de Janeiro, realizado em 17 e 18 de novembro, 858 coletas de sangue para diagnóstico do HIV foram feitas este ano até o dia 30 de outubro. Deste total, somente 54 resultados positivos chegaram ao serviço, sendo que 2 deles após 200 dias da coleta.

SERVIÇO SOBRECARREGADO 
Segundo a gerente do Programa Municipal de DST/Aids do Rio de Janeiro, Lílian de Mello Lauria, o laboratório responsável pelos exames do CTA Rocha Maia e de outros serviços do município está sobrecarregado. “Antes, esses exames eram feitos no laboratório do Hospital da Lagoa. Com a federalização desse serviço, desde julho os exames do município foram transferidos para outros laboratórios que já estavam sobrecarregados”, reconhece a gerente. Como solução a médio prazo, Lílian afirma que a Secretaria Municipal de Saúde do Rio está equipando um de seus laboratórios para torná-lo referência. “A nossa intenção é concentrar, aos poucos, a realização dos exames em um só laboratório em 2006. Vamos priorizar os locais com mais problemas, como o CTA Rocha Maia”, promete a gerente.
A gerente do Programa do Rio de Janeiro acredita que a utilização de testes rápidos para casos específicos em CTAs deveria ser autorizada pelo Ministério da Saúde. Entretanto, Lílian de Mello Lauria diz que, para isso, o Ministério deveria baixar uma nova portaria, autorizando a utilização mais ampla desses testes. “Sou favorável à utilização de testes rápidos em pacientes sintomáticos, mas só depois de o Ministério promover um treinamento não só técnico – para utilização dos testes – mas também de aconselhamento, para que mais profissionais estejam capacitados a dar um resultado positivo à pessoa”, afirma a gerente do Programa Municipal.

O QUE É TESTE RÁPIDO? 

Teste Rápido para o HIV 1 e 2 é um teste de triagem que detecta em 10 minutos a presença de anticorpos para o HIV no sangue, soro ou plasma coletado. É indicado para utilização em maternidades, para detectar a presença de anticorpos em mulheres grávidas que não realizaram os exames de aids convencionais durante o pré-natal, acidentes ocupacionais e em regiões onde o acesso ao diagnóstico é difícil, como os municípios da Amazônia e outras áreas remotas do país. Os serviços de saúde deverão adotar a realização de dois testes – T1 e T2 – em paralelo, com valores de sensibilidade de 100%. Caso os dois exames indiquem negativo, o resultado será considerado definitivo. Se os dois forem positivos, as amostras serão consideradas reagentes para o HIV. Em caso de resultados discordantes nos dois primeiros testes, um terceiro teste deve ser realizado com nova coleta de sangue em 30 dias. Se o resultado final for positivo, é indicado o Western Blot para confirmação posterior. O teste rápido não pode ser usado como diagnóstico, mas o Ministério da Saúde considera os resultados positivos válidos, para fins de inclusão no programa de distribuição gratuita de anti-retrovirais, aqueles aprovados pelo Programa Nacional de DST/Aids, como os fabricados pela Bio-Manguinhos e Universidade Federal do Espírito Santo (testes nacionais) e o teste importado Unigold, usado como terceira opção em resultados discordantes.

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