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Saber Viver » Saber Viver n.14

02/2002

Tempo de vida de pessoas com Aids aumentou

Pesquisa destaca que sobrevida aumentou depois da distribuição gratuita dos remédios anti-Aids

Analisar o tempo que uma pessoa sobrevive após o diagnóstico de Aids e apontar fatores que fazem com que ela viva mais. Este foi o objetivo da pesquisa que Dayse Pereira Campos desenvolveu para a obtenção do título de Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). 

Uma atabalhoada matéria do Jornal Nacional, colocada no ar em novembro do ano passado, acabou gerando muitas dúvidas sobre esta pesquisa. A principal delas diz respeito ao tempo de vida, em média, das pessoas que tiveram diagnóstico de Aids. Com o objetivo de esclarecer mal-entendidos, a Saber Viver conversou com a autora do trabalho.

Pesquisa analisou 193 pacientes 
“É importante esclarecer que foram analisados apenas os casos diagnosticados de Aids e não de infecção pelo HIV”, diz Dayse, que estudou 193 prontuários de pacientes atendidos no Centro de Pesquisa do Hospital Evandro Chagas (da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro) no período de 1986 a 2000. Como se sabe, existe uma diferença entre pessoas infectadas pelo HIV e pessoas com Aids. Um soropositivo pode permanecer infectado pelo HIV durante muitos anos sem nunca ter desenvolvido a Aids. A definição do que é caso de Aids foi estabelecida segundo critérios utilizados pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos EUA (CDC) em 1987 e 1993 e pelo Ministério da Saúde do Brasil em 1998. Uma das condições para ser enquadrado em caso de Aids pelo critério do CDC de 1993 é o paciente estar com CD4 abaixo de 200 e enquanto o Ministério da Saúde do Brasil considera estarem com Aids soropositivos com CD4 abaixo de 350.

A situação da Aids mudou muito durante os 20 anos de epidemia. Antes de 1996, a eficácia do tratamento anti-retroviral era bastante limitada. Com a chegada dos inibidores de protease e sua distribuição gratuita no Brasil, o número de mortes causadas pela Aids caiu drasticamente. Porém, na pesquisa foram incluídos casos de 1986 a 1991, quando nem mesmo os anti-retrovirais do tipo inibidores de transcriptase reversa (AZT, ddI etc) existiam ou estavam disponíveis no Brasil. “A maioria dos óbitos constatados na pesquisa ocorreu nessa época”, comenta a pesquisadora. Mas, para obter os resultados deste trabalho, Dayse contabilizou o tempo de vida de cada paciente e estabeleceu uma média geral. Logo, as mortes ocorridas antes de 1996 acabaram puxando para baixo o resultado referente ao tempo de vida das pessoas com Aids.

De 1996 para cá, apenas oito pessoas morreram
De todos os pacientes analisados, 67 foram diagnosticados após 1996, época em que os anti-retrovirais começaram a ser disponibilizados pela rede pública e apenas 8 morreram. O restante (59 pessoas) permaneceu vivo até o fim do estudo, alcançando sobrevida de 58 meses. Dos 193 prontuários verificados na pesquisa, 92 (47,7%) morreram, 21 (10,9%) abandonaram o tratamento e 80 (41,7%) permaneceram vivos até o fim do estudo. Dayse teve o cuidado de analisar quais foram os fatores que determinaram a sobrevida dos pacientes. Um deles foi o uso dos medicamentos anti-Aids. “Pacientes que usaram medicação, ou fazem o tratamento, possuem uma sobrevida maior do que quem não usa”. Começar um acompanhamento antes de serem necessárias internações é outro ponto importante para o aumento da sobrevida. Por exemplo, os pacientes que já faziam algum tipo de acompanhamento possuem um tempo de vida maior do que os que foram internados com quadro de Aids sem nunca terem se submetido a um acompanhamento. “Esses pontos são muito importantes para mostrar ao paciente que ele precisa buscar assistência o quanto antes. Isto é fundamental para que ele tenha um tempo de vida maior”, destaca Dayse.

A importância do diagnóstico precoce
Outro aspecto importante que a pesquisa ressalta é a importância do diagnóstico precoce. Segundo a infectologista Beatriz Grinsztejn, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, infelizmente ainda é muito freqüente as pessoas estarem infectadas pelo HIV e não desconfiarem disso: “o resultado é que essas pessoas só procuram fazer o teste anti-HIV quando estão doentes, muitas vezes internadas em hospitais, o que dificulta bastante o tratamento. Os dados da pesquisa ressaltam a importância do diagnóstico precoce para o aumento da sobrevida das pessoas”.

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