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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.06

09/2006

Terapia seqüencial pode trazer riscos ao tratamento contra a aids

A chamada “terapia seqüencial” pode comprometer a eficácia do tratamento contra a aids se não houver o cuidado de avaliar, previamente, os riscos de resistência do HIV às drogas. O teste de genotipagem, que identifica as mutações do HIV que levam à resistência aos medicamentos, é um instrumento que deve ser utilizado pelo profissional de saúde. Ao avaliar o resultado obtido, o médico deve também levar em consideração a barreira genética de cada droga antes de programar o esquema de resgate, exatamente para evitar o uso seqüencial de medicamentos com maior risco de falha no resgate. A situação preocupa infectologistas como Márcia Rachid e Estevão Portela, ambos da Coordenação Estadual de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids da Secretaria Estadual do Rio de Janeiro. Os pedidos de exames de genotipagem que chegam à Coordenação mostram que muitas vezes os esquemas terapêuticos com os antiretrovirais são modificados de forma equivocada. Segundo o infectologista Estevão Portela, os médicos às vezes não investigam o que de fato está prejudicando a terapia e modificam o esquema de forma inadequada: “É esperado que no decorrer de um tratamento de longo prazo ocorra, em algum momento, correções de curso, sejam por toxicidade ou por falha terapêutica. Mas essa troca precisa ser feita com extremo cuidado. A substituição simples de um medicamento por outro de classe diferente visando melhorar a adesão, por exemplo, só deve ser feita se houver exame recente comprovando que a carga viral se encontra indetectável e, mesmo assim, após análise cuidadosa do histórico de terapia anti-retroviral do paciente”, alerta Portela.

CUIDADOS AO PRESCREVER UMA TERAPIA DE RESGATE
Márcia Rachid e Estevão Portela ainda destacam que esquemas terapêuticos considerados eficazes como primeira escolha podem ser inadequados quando aplicados em terapia de resgate. Um bom exemplo disso é a terapia com inibidores de transcriptase reversa não-análogos de nucleosídeos, eficaz como primeira escolha, porém inadequada no resgate se não for associada a um inibidor da protease. “Se não forem tomados certos cuidados, a chance do esquema falhar é muito grande”, alerta o infectologista. Márcia Rachid acrescenta que para prescrever uma terapia de resgate, o médico tem que utilizar um esquema que consiga superar a potência do anterior. A infectologista alerta também que, caso o vírus desenvolva resistência a alguma droga, é preciso considerar o risco de resistência cruzada entre medicamentos da mesma classe.

Para sanar possíveis dúvidas, Márcia Rachid sugere que os profissionais de saúde leiam, com atenção, o documento Recomendações para Terapia de Anti-Retroviral em Adultos e Adolescentes Infectados pelo HIV, do Ministério da Saúde, que acaba de ser revisado. “Através deste documento, que é elaborado por um grupo de especialistas de todo o país, é possível ter acesso a todas as informações para uma prescrição correta desses medicamentos, inclusive as interações dos anti-retrovirais com fitoterápicos e outras drogas. Todos os profissionais de saúde que atendem pessoas soropositivas deveriam consultá-lo constantemente”, afirma Rachid.

A SEDUÇÃO PELOS NOVOS MEDICAMENTOS
Outra preocupação ressaltada pelos infectologistas Márcia Rachid e Estevão Portela é a tendência que alguns médicos têm de optar por novos medicamentos por acharem que eles são mais eficazes na supressão viral. “Isso não é, necessariamente, verdade”, afirma Rachid. Segundo a infectologista, quando há o lançamento de um novo anti-retroviral, é necessário que, antes de prescrevê-lo, o médico se certifique de que realmente há indicação do mesmo. “O fato de ser um medicamento novo no mercado não o torna automaticamente ativo ou mais potente para o esquema de resgate. Infelizmente, muitos profissionais de saúde têm essa ilusão”, completa Estevão Portela.

O DESAFIO DE MANTER A ADESÃO DO PACIENTE

Apesar de todo o avanço científico na descoberta de novos antiretrovirais, o maior desafio para o tratamento continua sendo a adesão do paciente. “Muitas vezes, quando analisamos o resultado de um exame de genotipagem, percebemos que aquele paciente não está aderindo ao tratamento”, conta Portela. O infectologista acredita que, diante deste quadro, algumas atitudes precisam ser tomadas pelo profissional de saúde. “Já sabemos que, para o tratamento dar certo, precisamos prescrever esquemas que se adaptem ao cotidiano da pessoa. Além disso, é necessário investigar o motivo que a impede de tomar corretamente os medicamentos. A falta de adesão ainda é um dos principais fatores que fazem com que o vírus se torne resistente a determinadas drogas”, diz Portela.

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