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Saber Viver » Saber Viver n.50

05/2013

Tratamento: superando barreiras

Sentença de morte na década de 80, a aids hoje desperta novas questões e cuidados

“É preocupante observar pacientes diagnosticados já apresentando imunossupressões expressivas e infecções oportunistas graves”. Estevão Portela

“É preocupante observar pacientes diagnos-ticados já apresentando imunossupressões expressivas e infecções oportunistas graves”. Estevão Portela

Se, no início da epidemia, os remédios caríssimos e pouco potentes eram restritos a alguns portadores do HIV, hoje, graças a uma política que investiu na fabricação nacional de antirretrovirais e em formar equipes de saúde, o tratamento tornou-se mais eficaz e acessível. No Brasil, atualmente, 217 mil pessoas podem contar com medicamentos de última geração capazes de promover qualidade de vida às pessoas que vivem com HIV/aids. Outra vitória é o quadro de profissionais de diversas especialidades envolvidos no tratamento. Antes, apenas médicos; hoje, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, assistentes sociais, etc.

Mas as dificuldades persistem. Embora o Ministério da Saúde assegure a ampliação de uma rede de cuidados e de exames de testagem para o HIV, sífilis e hepatites, Estevão Portela, infectologista do Instituto de Pesquisas Evandro Chagas Filho/ Fiocruz, aponta que um dos mais sérios problemas para o tratamento é o diagnóstico tardio. “É preocupante observar pacientes diagnosticados já apresentando imunossupressões expressivas e infecções oportunistas graves”, alerta. O médico acredita ser urgente investir no treinamento das equipes de atendimento primário e secundário para reconhecimento de sinais e sintomas de infecção pelo HIV e estabelecer fluxos claros de encaminhamento. E erradicar de vez a transmissão vertical, de mãe para filho. “Os números caíram significativamente, mas neste ponto é preciso ser mais exigente e interromper este elo na corrente da epidemia”, afirma Portela.

Adesão ainda é problema
A complexidade das questões associadas ao portador do HIV torna imprencindível a abordagem multidisciplinar. Em especial, destaca Portela, quando o paciente é usuário de drogas. “O número de casos assim vem crescendo e o acompanhamento impõe dificuldades extras, principalmente relacionadas à adesão”, explica.

Sabemos que, até hoje, a maioria dos soropositivos luta para seguir sem falhas terapia antirretroviral e que isso envolve inúmeros fatores. Mas a boa notícia é que o Ministério da Saúde pretende disponibilizar em breve o esquema de único comprimido diário contra a aids, o que contribuirá para a adesão. Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do MS assinala que “otimizar a adesão e a manutenção do tratamento e fortalecer estratégias de prevenção positiva, promovendo ações direcionadas ao estilo de vida e ao convívio com o HIV ao longo do tempo são ações prioritárias para os próximos anos”.

“O soropositivo se sente um doente contagioso indesejável dentro dos consultórios e unidades de saúde”. Pedro Scharth

“O soropositivo se sente um doente contagioso indesejável dentro dos consultórios e unidades de saúde”. Pedro Scharth

Preconceito no séc. XXI
A relação profissional de saúde/paciente preocupa Pedro Scharth, estudante de Economia e portador do vírus. “Ainda é extremamente recorrente problemas com profissionais de enfermagem que realizam coletas para exames laboratoriais e, principalmente, dentistas. Muitos ainda não têm um bom esclarecimento sobre a aids e o soropositivo se sente um doente contagioso indesejável dentro dos consultórios e unidades de saúde”, relata.

O preconceito é um velho entrave para o tratamento dos que vivem com o HIV. O psicólogo e presidente do Grupo Assistencial SOS Vida, Cal Pires, sabe bem disso. As paredes de seu consultório guardam dezenas de histórias com esse pano de fundo. “As pessoas chegam até nós carregadas de culpas e dores, mesmo nos dias atuais”, conta ele.

Dirceu Greco reconhece que essa é uma das faces do problema. “É necessário continuar a luta contra a discriminação e o preconceito” diz, acrescentando que o acesso a cuidados profissionais de qualidade, com capacidade para ajudar o paciente a enfrentar as dificuldades inerentes ao tratamento prolongado, é fundamental.

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CRT DST/AIDS SP SEGUE NA VANGUARDA DO TRATAMENTO DA AIDS

Taís Sousa - arquivo pessoal

“Eu não buscava o serviço de saúde por medo da discriminação que iria passar”. Taís Sousa

Investir na qualidade de vida de seus pacientes é o princípio que norteia o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo desde sua criação, em 1988. Sempre atento às demandas que surgem, o CRT oferece serviços que contemplam a diversidade de seu público.

O Ambulatório de Alterações Ósseas é um exemplo disso. Criado no início de 2012, atende mulheres em menopausa, homens com 50 anos ou mais e pacientes com história prévia de fratura não relacionada a trauma. “O HIV e a terapia antirretroviral, associados a fatores de risco, podem predispor os pacientes à doença óssea”, explica a infectologista Gisele Gosuen, diretora do ambulatório. Praticar atividade física regular, não fumar, não ingerir bebida alcoólica, tomar sol e ter uma alimentação saudável são algumas formas de prevenir a doença.

Equipe multidisciplinar garante a qualidade do atendimento – Casais sorodiscordantes que desejam ter filhos podem contar com o CRT SP para a realização de procedimentos de reprodução assistida que chegam a reduzir em até 100% as chances de transmissão vertical do HIV, da mãe para o bebê. Com uma equipe multiprofissional, o serviço funciona desde 2010 e já atendeu mais de 300 pessoas. No Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, os usuários passam por consultas de clínico geral, psicodiagnóstico, psicoterapia de grupo, fonoaudiologia e psiquiatria, dentre outros. Foi lá que a transexual Taís Sousa perdeu o medo de frequentar serviços de saúde. “Eu não buscava o serviço de saúde por medo da discriminação que iria passar. O ambulatório veio com a proposta de trabalhar a saúde integral. Então eu sei que se eu sentir uma dor no silicone ou uma dor de cabeça posso recorrer a este serviço, pelo compromisso que os profissionais têm em nos atender”. Inaugurado em 2009, o Ambulatório já é referência no Brasil como serviço de saúde voltado para esta população.

ATENDIMENTOS NOS AMBULATÓRIOS DO CRT-SP

Ambulatório para Travestis e Transexuais: Para ser atendido é necessário abrir um prontuário, passar por acolhimento com equipe psicossocial que levantará as demandas do usuário, dará orientações sobre o atendimento e fará os encaminhamentos necessários. Caso o interessado seja do interior de São Paulo ou de outro estado, deverá entrar em contato com as diretoras do ambulatório para solicitar uma ficha de cadastro para abertura de prontuário e agendamento da primeira consulta. O contato deve ser feito através dos seguintes e-mails: judit@crt.saude.sp.gov.br / angela@ crt.saude.sp.gov.br.

Reprodução Assistida: O atendimento no ambulatório para procedimento de reprodução assistida é feito às sextas-feiras, a partir das 8h30. A marcação de consultas é feita na diretoria do ambulatório através do telefone (11) 5087-9889. O serviço funciona em parceria com o Crase – Centro de Reprodução Assistida em Situações Especiais – da faculdade de medicina do ABC. Alterações ósseas: Para mais informações sobre o atendimento no ambulatório de Alterações Ósseas, entre em contato com o local pelo telefone (11) 5087-9898.

O Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids fica na rua Santa Cruz, 81 – Vila Mariana – São Paulo – SP.

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