Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Tributo a um jovem guerreiro

Juliana Martins de Mattos
Maria Helena Leite de Castro Mendonça

Psicólogas e Coordenadoras do Projeto ConvHIVendo

A epidemia de aids tem afetado cada vez mais os jovens. Além disso, com o advento da terapia anti-retroviral combinada e o acesso universal gratuito aos anti-retrovirais, o número de internações hospitalares por infecções oportunistas vem diminuindo significativamente e a sobrevida dos pacientes pediátricos vem aumentando consideravelmente. Com isso, muitas crianças estão se tornando adolescentes. Diante disso, torna-se um grande desafio para os profissionais de saúde e educação o atendimento a um número cada vez maior de adolescentes, tanto no nível da prevenção quanto da assistência.

O trabalho com adolescentes, desenvolvido pelo Projeto ConvHIVendo – Projeto de Atendimento Psicológico a Crianças e Adolescentes Portadores de HIV/aids, seus Familiares e Profissionais de Saúde, no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle do Rio de Janeiro, desde 1995, favorece o encontro, a troca de experiências, a criação de laços de amizade, o resgate de sonhos e projetos de vida, vínculo afetivo e sentimento de pertencimento entre os jovens pacientes vivendo com HIV/aids.

Jovens que chegam ao Projeto infectados por transmissão vertical, por transfusão de sangue ou por transmissão sexual. Jovens com angústias, medos de revelar a seus pares que são portadores e mais ainda do preconceito e da discriminação experienciados por quem vive com aids. Os desafios de conciliar tratamento, estudo e a inserção no mercado de trabalho com a angústia de conviver com medicações difíceis e de efeitos colaterais muitas vezes severos podem dificultar a reconfiguração de seus sonhos e projetos de vida.
Esta é a história de T, um jovem que foi infectado por transmissão vertical e descobriu-se portador aos 13 anos, sozinho. Quando começou a freqüentar o Projeto ConvHIVendo, era uma pessoa amarga, solitária, em nada acreditava e achava que nada dava certo para ele. Pessimista, ficou conhecido no grupo por seu estado de espírito sempre “do contra”. Se houvesse sol, preferia que chovesse, e se chovesse, melhor seria se houvesse sol. Descrente dos homens e de Deus! Sua mãe fora prostituta e usuária de drogas e bem pequeno o entregou para que o pai e a avó paterna o criassem. T se ressentia dessa atitude materna e não entendia o que lhe acontecera. Cuidava da avó paterna e dele mesmo, – pois o pai tinha problemas com álcool – sentia-se desamparado, desamado e responsabilizava os pais por sua infecção.

Foi assim que T chegou ao Convhivendo! Convidamos para participar das atividades desenvolvidas pelo Projeto. “Ah! Isso era muito chato!”, reclamava T, porque o grupo ainda começava a se formar. Para motivá-lo a participar dos atendimentos em grupo, as coordenadoras do ConvHIVendo introduziram uma nova metodologia de atendimento, incluindo atividades externas.

A partir desse estilo de atendimento, T, devagarinho e desconfiado, chegou ao grupo, que de forma carinhosa e brincalhona apontava para seu mau humor.

O trabalho de grupo com os adolescentes intercalava então atividades internas no Hospital e eventos externos – Cristo Redentor, cinema, seguido de almoços, passeios em parques de diversão, etc. T foi saboreando esses encontros, desfrutando de cada momento, resgatando o sentimento de pertencimento, de calor humano e amorosidade que vivenciava junto com o grupo de adolescentes, os familiares atendidos pelo Projeto e a equipe interdisciplinar, sabores por ele outrora desconhecidos. Foi se reconhecendo e se validando como ser humano. E na vida, como na música de Almir Sater e Renato Teixeira, T conheceu outras formas de viver… “Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs. É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir. É preciso a chuva para florir”.

No grupo foi se afinando com seus pares e solidificando amizades. Mas a saúde de T era muito frágil. A descoberta tardia do HIV, o início do tratamento quando seu organismo já não era capaz de responder tão bem aos medicamentos e o contexto familiar adversos foram fatores decisivos para uma perspectiva pouco otimista.

Os grupos de familiares e de adolescentes atendidos pelo Projeto, a equipe médica, os enfermeiros, as coordenadoras do Projeto, todos sofriam a cada recaída que T apresentava. O Projeto ConvHIVendo e o grupo de familiares cuidavam e o acompanhavam quando ele se internava. Havia um mutirão de solidariedade e de afetividade entre os familiares, que passaram a cuidar de T.

Num determinado momento, T estava mais pessimista do que nunca e tinha todas as razões para isso. Havia um desconforto físico por conta de uma enorme úlcera na sua língua. T não respondia bem às atuais medicações para o seu tratamento. Nesse momento, a médica que o atendia iria viajar (era um feriado longo) e telefonou para uma das coordenadoras falando de sua preocupação com T, que estava muito deprimido. Temia que seu estado emocional comprometesse ainda mais sua saúde. Nesse dia de feriado o Hospital não funcionaria. A profissional marcou com ele assim mesmo e realizou o atendimento no Parque Lage. Momento difícil para ambos, paciente e profissional! O sol refletia na imagem do Cristo Redentor e a profissional pedia inspiração a Deus para esse atendimento decisivo. Teria que falar para T que chegava o limite médico e farmacológico! Que havia um limite para o tratamento dos homens, só não havia limite para Deus. A profissional sabia que T em nada acreditava. E assim, nessa conversa tão delicada foi possível falar de espiritualidade, do religar-se à vida, e assim foi se desenhando uma nova perspectiva para T. Começava uma grande virada em sua vida, com a inclusão da espiritualidade no seu cotidiano!

Seu tratamento era circundado de amorosidade por todos que o cuidavam, gotas de afetividade perpassavam a vida desse adolescente. O grupo criou uma rede de suporte emocional, começou a visitá-lo e a sair com ele. A amizade se solidificou entre T e M, que passou a ser o irmão que ele tinha, mas não sabia onde estava. Sua saúde melhorava cada vez mais, apesar de seu CD4 ser apenas 2. Ele não se internou mais e passou para uma escola técnica federal! É um momento de celebração. T passou a se considerar o bem-amado do hospital! Por ocasião da premiação pela adesão ao tratamento, evento instituído pelo Projeto ConvHIVendo para estimular os pacientes a melhor se engajarem no tratamento, T ganhou o 1º lugar! Houve sorteios de prêmios e T ganhou novamente! Para sua grande surpresa, uma vez que não acreditava na sorte em sua vida. T passou a sorrir, estava quase alegre, ainda resmungão, claro, para não perder seu estilo!

Ao completar 19 anos, começou o seu processo de despedida da vida. Sofreu surtos psicóticos, deixando todos em total desalento. O grupo de adolescentes sofria, se entristecia com uma nova internação de T.

Porém, quando todos estavam desesperançados, T se recuperou novamente, e mesmo com menos de 1 de CD4 ele voltou a freqüentar o grupo. Naquele momento, passou a ser cuidado por seu pai! Aquele pai que esteve ausente por tanto tempo retomava o tratamento do filho e passava a cuidar dele! Por mais um tempo, pai e filho, juntos, percorriam o caminho da vida! T passou por mais uma etapa. Como diz Ivan Lins:

“Desesperar, jamais
Aprendemos muitos nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo”

Após algum tempo, T voltou a se internar e dessa vez foi levado à UTI. A médica que o atendia disse às coordenadoras, que estavam de férias, que continuassem os atendimentos a T, pois seria o momento da despedida, ele não passaria de 24 horas. As psicólogas coordenadoras começaram a atender T na UTI e perguntaram a ele o que gostaria de resgatar, alguma coisa que ele deixou de dizer para alguém. T disse que gostaria de estar com seu grande amigo M e também que o aparelho de vídeo do Projeto fosse levado para a UTI para que ele pudesse assistir os filmes “Homem Aranha” e “O Senhor dos Anéis”. Esse era o momento de talvez poder atender seus últimos desejos e a psicóloga então disse que quando ele retornasse à enfermaria, providenciaria o vídeo. Disse isso por acreditar que enquanto houvesse vida haveria esperança.

Para a surpresa de todos, T saiu da UTI, venceu uma infecção generalizada e retornou à enfermaria. O vídeo foi providenciado e ele pôde assistir todos os filmes que desejou. Os amigos levaram algumas fitas e as psicólogas alugaram os filmes que ele pediu, e ele pôde então assisti-los todos!

Na semana anterior ao Carnaval, havia uma previsão de alta para T e ele começou a fazer planos, mas uma pneumonia o venceu. T partiu, assim como um dia todos nós partiremos, porém antes descobriu o amor pela vida, conquistou amigos, resgatou o relacionamento paterno, realizou sonhos, viveu muito mais do que qualquer prognóstico médico. Viveu melhor! Numa frase dita por ele: “O ConvHIVendo transformou minha vida. Antes era de casa para o hospital. Agora eu tenho uma família”. O que T. não sabia era que ele transformou o ConvHIVendo, humanizou um sistema de saúde e trouxe a certeza de ter valido à pena para duas psicólogas coordenadoras ter criado o Projeto ConvHIVendo, com amor e com afeto!

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