Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Uma atenção especial ao adolescente soropositivo

Vera Lopes1, Cledy Eliana2 e Suely Andrade3
1. Antropóloga, Assessora Técnica da Unidade de Prevenção/PN DST Aids
2. Médica, Assessora técnica da Unidade da UDAT/PN DST Aids
3. Psicóloga, Assessora técnica da SCDH/PN DST Aids

O Programa Nacional de DST/aids desenvolveu, em 2003, uma ampla discussão sobre a situação dos adolescentes vivendo com HIV no país e sua rede de apoio social. A partir de um grupo de profissionais de saúde e representantes de ONGs que, com sua larga experiência de trabalho junto a adolescentes, expressou diferentes preocupações no sentido de ampliar este trabalho, foi desencadeada uma série de encontros envolvendo adolescentes de algumas cidades e profissionais de todos os estados, com o objetivo de juntos elaborarmos diretrizes e propostas dirigidas ao trabalho com os adolescentes vivendo com HIV.

Mais da metade das novas infecções por HIV que ocorre na atualidade afeta jovens de 15 a 24 anos de idade. No Brasil, estima-se que, a cada ano, quatro milhões de jovens tornam-se ativos sexualmente. Segundo a BEMFAM (DHS 1996), a idade mediana da primeira relação sexual para homens é de 14 anos, e para as mulheres, 15 anos. O início precoce da vida sexual pode ser considerado um agravante para o comportamento de risco frente ao HIV/ aids. Em alguns países da América Latina e Caribe, pesquisas revelam um baixo índice do uso freqüente do preservativo entre os jovens de baixa escolaridade e um alto índice de gravidez e abortos realizados em condições de alto risco, entre pré-adolescentes e adolescentes.

Na população brasileira, desde 2000, estão ocorrendo mais casos de aids em meninas do que em meninos, com idade entre 13 a 19 anos. No período de 2000 a 2002, foram notificados 531 novos casos de aids em meninas de 13 a 19 anos, contra 372 casos em rapazes da mesma idade, mostrando uma proporção de dois novos casos em mulheres para um caso em homens, logo no início da atividade sexual. Na faixa etária subseqüente (de 20 a 24 anos), a relação praticamente se igualou, com 2.346 casos em homens e 2.299 casos em mulheres nos últimos dois anos.

O número elevado de ocorrências de gravidez na adolescência em jovens entre 10 e 19 anos (210.946 partos e 219.834 casos de abortos atendidos no Sistema Único de Saúde – SUS, no período de 1999 até abril deste ano), o aumento da ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis e a intensificação do consumo de drogas lícitas (álcool, cigarro e tranqüilizantes) e ilícitas (maconha, cocaína e crack) – com a agravante do uso de drogas injetáveis com compartilhamento de agulhas e seringas – ajudam-nos a entender melhor porque os jovens brasileiros são, em cada vez maior número, vulneráveis à infecção pelo HIV/aids.

Caracteriza-se, ainda, como fator de vulnerabilidade dos jovens frente ao HIV/aids, a violência sexual praticada contra adolescentes, incluindo o abuso sexual e a exploração sexual comercial. A Rede Feminista de Saúde identificou que 48% dos atendimentos nos serviços de abortos previstos por lei são de jovens entre 10 e 19 anos.

Educar os jovens sobre os riscos de transmissão do HIV, apoiá-los na construção de habilidades para negociar, resolver conflitos e ter opiniões críticas melhora a confiança em si mesmos e aumenta a capacidade de tomar decisões responsáveis para se proteger e motivar seus parceiros e colegas para que tomem decisões seguras. Não é diferente para os adolescentes vivendo com HIV.

Como conseqüência do uso da terapia anti-retroviral no Brasil, atualmente, chegamos à primeira geração de adolescentes vivendo com HIV que se enquadram na categoria de transmissão vertical. São 1675 pessoas entre 10 e 19 anos fazendo uso da terapia anti-retroviral no país. No entanto, ainda nos deparamos com muitas barreiras que contribuem para uma baixa adesão ao tratamento em diferentes regiões do país.

Daí a importância da abordagem integral do adolescente, para além do tratamento e administração da terapia anti-retroviral.

O PN DST/Aids tomou a iniciativa de ouvir os adolescentes sobre o atendimento nos serviços de saúde e na rede de apoio social para orientar a formulação de diretrizes do Ministério da Saúde, considerando as demandas dos adolescentes. Para tanto, foram realizadas 8 oficinas de trabalho com os adolescentes em 8 cidades, além de três encontros macro regionais, nos quais estiveram presentes representantes de todas as unidades federadas: profissionais que atuam em serviços de saúde, profissionais da área da saúde do adolescente, ONGs, adolescentes vivendo com HIV/aids e adolescentes em situação de risco social. Finalmente, um fórum nacional alinhavou propostas para serem discutidas com outros programas governamentais, já que a atenção integral ao adolescente depende de políticas intersetoriais.

As falas dos adolescentes vivendo com HIV nos mostraram avanços alcançados e, ao mesmo tempo, muitas necessidades e lacunas, tal como consta no documento preliminar do Fórum Nacional:
 Os adolescentes com vida sexual ativa têm tido acesso ao preservativo nos serviços de saúde;
 Os adolescentes não têm espaços coletivos de interlocução para tratar de temáticas como a sexualidade, saúde reprodutiva, acesso e permanência na escola, troca de vivências e suas percepções sobre as instituições de apoio social;
 Os cuidadores/ familiares destes adolescentes têm pouca ou nenhuma oportunidade de discutirem, em espaços coletivos, suas dúvidas e alternativas para apoiarem adequadamente os adolescentes;
 A maioria dos adolescentes que vivem em instituições de apoio, embora reconheçam e mantenham vínculo afetivo com estes cuidadores, têm expectativa de viverem com maior autonomia para tomada de decisões e em ambiente familiar – com madrinha, padrinho, avós, tios, etc;
 A revelação do diagnóstico é uma grande dificuldade para profissionais de saúde e familiares – sendo que muitos adolescentes, embora “desconfiem” que são portadores do HIV, não tiveram ainda seu diagnóstico explicitado. A maioria destas situações foi constatada entre os adolescentes da categoria de transmissão vertical;
 Muitos adolescentes têm tomado conhecimento do diagnóstico durante internação, na transmissão vertical ou no pré-natal, quando da transmissão sexual;
 Estrutura dos serviços inadequada para atendimento dos adolescentes – espaços pouco humanizados e pensados para os adolescentes – ou são de pediatria ou são de adultos;
 Falta de articulação dos serviços especializados de aids e serviços de saúde do adolescente;
 Reconhecem nos profissionais de saúde um bom acolhimento individual e apontam para a necessidade de serem atendidos por diferentes profissionais, como psicólogos e assistentes sociais;
 Discriminação – receio de revelar seu estado sorológico a amigos, receio do isolamento, referência a situações de discriminação preconceito na escola.

Enfim, propor atenção especial para o adolescente soropositivo nos remete à necessidade de avaliar o quanto temos dedicado de atenção ao aolescente de um modo geral… Como os profissionais da saúde têm convivido com as especificidades expressas neste período da vida.

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