Saber Viver Mulher

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Mulher » Saber Viver Mulher n.02

12/2004

Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer

Maria Aparecida Lemos descobriu que estava infectada pelo HIV há três anos. Há dois, perdeu a visão por causa de uma doença oportunista. Talvez estivesse enxergando até hoje se os médicos não demorassem tanto para diagnosticar o HIV em seu corpo. “Tive sérios problemas de saúde, mas não me pediam o exame de HIV”. Provavelmente, essas pessoas não poderiam supor que uma professora aposentada, 45 anos e com um corpo robusto pudesse ter aids. Infelizmente, diagnósticos tardios surgem entre várias Marias, porque alguns médicos ainda acreditam que elas não possuem o “perfil” da epidemia. Esse comportamento custou à Cida sua visão. Mas não tirou o seu sorriso. Afinal, essa Maria possui a estranha mania de ter fé na vida.

Qual foi a sua reação quando recebeu o resultado do exame?
Cida – Foi terrível. A minha reação foi de apatia. Eu achei que a aids estava tão longe de mim.

Por quê?
Cida – Eu sempre me achei imune a isso por ser professora e ter conhecimento das formas de prevenção. Achei que poderia acontecer com qualquer pessoa, com artistas, com um vizinho, com uma pessoa distante, mas comigo, nunca!

Você recebeu apoio de outras pessoas?
Cida – Foi muito difícil superar toda essa questão. No início, meus irmãos queriam que eu dissesse para todo mundo que eu tinha câncer. Mas eu sempre pautei a minha vida na verdade. Resolvi não mentir. Até porque eu não me envergonho. Essa foi uma decisão que eu tomei ainda internada.

Você se internou diversas vezes?
Cida – Eu fui internada várias vezes. Descobri em janeiro de 2000 e fiquei o ano inteiro internada. Inclusive, decidi no hospital que eu contaria para as pessoas, inclusive para as professoras com as quais eu trabalhei. Eu já estava aposentada, mas eu queria dividir isso com todo mundo.

E qual foi a reação das pessoas?
Cida – As pessoas choravam, desesperadas. Eu sempre dizia que não queria que elas chorassem porque eu precisava delas. Mas as pessoas me apoiaram muito. Quando eu acordava no hospital, todas as segundas-feiras, tinha sempre um cartaz colado na porta, com bilhetinho das crianças e das professoras da escola onde trabalhei. A minha família também me dá muito apoio até hoje. Eles vibram muito comigo. E também dou força a eles para superarem esta situação.

Você não teve medo de ser discriminada?
Cida – Eu sabia que as pessoas que eu realmente amo ficariam do meu lado e estão comigo até hoje. As pessoas em geral me respeitam, porque eu me respeito.

E a perda da visão?
Cida – Me abalou muito mais do que saber que estava infectada pelo HIV. Foi tudo muito rápido. Comecei a sentir um incômodo na vista e, depois de um tempo, descobriram que eu tinha o citomegalovirus no olho. Estou reaprendendo a ver o mundo. Hoje eu tenho a certeza que eu me tornei uma pessoa melhor.

Como assim?
Cida – Compreendo mais o outro, ouço mais as pessoas. Quando você não pode olhar o outro, você tem que senti-lo, tem que perceber o tom da sua voz. Hoje eu sei quando uma pessoa está aborrecida ou triste pelo tom da voz. Eu não estou olhando para ela, mas sei que posso ajudá-la, ouvindo-a ou apenas chorando junto.

Você deixou de fazer alguma coisa por causa da visão?
Cida – Eu adorava dirigir. Isso eu não posso fazer. Mas, em compensação, estou fazendo outras coisas. Eu nunca gostei de fazer trabalho manual. Hoje, a partir de um projeto de geração de renda que eu criei no IprA (ONG carioca), comecei a fazer aulas de artesanato para incentivar a participação das pessoas. Adorei. Hoje faço várias bijuterias. Além disso, passei a freqüentar o Benjamim Constant (instituição para deficientes visuais, no Rio de Janeiro) e voltei a usar o computador.

Você tem algum sonho?
Cida – Ainda no hospital, a minha idéia era abrir uma ONG para falar para as mulheres da minha idade, com o meu nível de instrução, que nós estamos sujeitas também a ter HIV e aids.

E o que você gostaria de falar para as pessoas que estão lendo esta entrevista agora?
Cida – Temos que celebrar a vida. O mais importante é estarmos vivos, é estarmos aprendendo a cada dia: com condições, sem condições, mas com ajuda. Foi difícil enfrentar a cegueira. Mas hoje faço as coisas que eu quero, que eu gosto de fazer. Eu percebi que estar viva é mais importante para mim.

Quem quiser entrar em contato com Maria Aparecida,
basta enviar um e-mail para iprarj@ig.com.br ou 
ligar para o IprA             (21) 22542088      .

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