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Saber Viver » Saber Viver n.43

10/2008

Uma multidão para pensar a Aids

Florianópolis recebeu, de 25 a 28 de junho, a sétima edição do Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids, o maior evento de saúde pública e aids do Brasil. Cerca de 4 mil pessoas participaram de mesas redondas, conferências, conversas afiadas, comunicações coordenadas e fóruns. Juntos, pessoas vivendo com HIV, profissionais de saúde, gestores, ativistas e outros envolvidos na luta contra a aids discutiram os rumos da resposta brasileira à epidemia.

Eles falaram sobre adesão, busca consentida de pacientes que abandonam o tratamento, deficiências, drogas, comunidades, propriedade intelectual, produção científica, entre outros assuntos.A diversidade foi grande, mas, em todas as discussões, o debate estava associado ao tema deste ano: “Município-mundo”. A proposta geral era refletir sobre o que é feito em municípios e sobre o impacto dessas ações no mundo.

Leitora lamenta atraso na legislação
Leitora assídua da Saber Viver e uma das campeãs de correspondência da revista, Rosaria Piriz, 52 anos, há nove com HIV, participou ativamente dos debates e acha que as discussões contemplaram os interesses das pessoas que vivem com aids. O assunto que ela lamenta não ter acompanhado tão de perto Congresso 12 foi a discussão sobre lipodistrofia: “Brasileiros estão morrendo sem ter o tratamento, porque a legislação que autorizaria o procedimento não avançou. Esse é um direito que não está em prática e que nos prejudica. Não é o meu caso, mas o sofrimento do outro é meu também”, considera.
A III Mostra Saúde e Prevenção nas Escolas, também foi realizada em Florianópolis, um dia antes do Congresso. Durante a cerimônia de encerramento, 20 jovens vivendo com HIV se levantaram e taparam suas bocas com esparadrapo onde se lia “HIV+”. O manifesto visava mais espaço nas discussões políticas sobre educação e juventude: “Também queremos ter voz. Somos jovens, mas temos capacidade de lutar como adultos pelos direitos de igualdade”, disse Juliana Manzi, 19 anos, moradora de Maceió (AL).

Arte para promover a prevenção
Em meio a tantas discussões, a arte aparecia não só como momento de descontração, mas também para mostrar que pode ser uma forma diferente de promover a prevenção: “Trabalhamos com o mesmo tipo de metodologia há anos. A arte é uma forma de inovar, uma nova ferramenta”, defende a representante da Associação Brasileira Interdiscipliar de Aids (ABIA), Luciana Kamel. As atividades culturais associaram expressões artísticas à prevenção e estavam presentes no cinema, teatro, fotografia, música e literatura.
Na abertura do Congresso, por exemplo, a peça teatral “A Dhiversidade em Cena”, do grupo paulista “Good Morning, São Paulo”, levou ao palco travestis, prostitutas, hetero e homossexuais, pessoas com deficiência visual e cadeirantes, soropositivos ou não. Já a exposição literária Jardim das Letras prestou homenagem a Caio Fernando Abreu, morto em 1996, vítima da aids, a partir de vídeos, áudios e pequenos livros com trechos de contos, romances, crônicas e peças teatrais do autor gaúcho.
Um dos destaques do congresso foi o Labirinto das Sensações, uma intervenção artística que convida o espectador a experimentar sensações com a ajuda de performances de atores, estimulando a reflexão sobre o preservativo e as DST/aids. A iniciativa da Cia. Paulista de Artes e do Programa Municipal de DST/Aids de Jundiaí (SP) também atraiu a jovem Juliana Manzi: “Lá, eles provaram que muitos homens estão errados quando não querem usar a camisinha, pois percebemos que ela não incomoda nem um pouco”, contou.

Betinho ainda inspira os jovens
Foi durante o congresso que Juliana conheceu a história de Herbert de Souza, o Betinho, e seus dois irmãos. Ela ficou impressionada com a força de vontade e a coragem dos mineiros que enfrentaram todo o preconceito que a aids tinha na época para lutar contra o HIV: “Dá muita força para jovens como eu, que vivo com HIV, quererem lutar. Vemos que podemos nos espelhar neles e ir muito longe”, comenta, orgulhosa. Para ela, os dias foram de amadurecimento: “Foi uma grande conquista, um marco na nossa luta”, afirmou.
As redes formadas por pessoas que vivem com HIV (de Jovens, a Nacional e de Mulheres – Cidadãs Posithivas) decidiram elaborar uma carta em conjunto que foi apresentada no final do Congresso. Outro manifesto de PVH foi lido no encerramento, que terá sua próxima edição em Brasília (DF), em novembro de 2010.

“Nós queremos mais”
Wallace Alcântara*

“Nós poderíamos estar em casa, sentados e tomando os remédios, como outro jovem soropositivo qualquer. Mas, assim como eu, existem aqueles que não querem somente ficar esperando que os outros lutem por seus direitos. Nós queremos mais. Queremos, um dia, ser ativistas, daí a importância de irmos a eventos assim, onde ficamos por dentro dos assuntos e aprendemos diversas coisas. Talvez esses eventos sejam grandes formadores de ativistas. Neles, deixamos de ser protagonistas apenas em nossas cidades e passamos a ser protagonistas no país. Minha meta é poder lutar pelos outros, assim como lutaram por mim.”

 

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