Circulador

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Circulador » Circulador n.01

11/2004

De braços abertos

Boa acolhida faz com que jovens passem a freqüentar postos de saúde

Não desperdiçar a oportunidade de atender o jovem que chega procurando ajuda. Esse é o lema de profissionais de diferentes unidades de saúde da cidade do Rio de Janeiro que investem na promoção da saúde do jovem.
No PS Madre Teresa de Calcutá, na Ilha do Governador, todos os meninos e meninas entre 12 e 18 anos que chegam ao posto são encaminhados para o AIA – Programa de Atendimento Integral ao Adolescente. Lá, uma assistente social está pronta para ouvir, dar orientações e marcar uma consulta. Tudo isso sem a necessidade de longas filas de espera.
Segundo Riva Rozenberg, pediatra e coordenadora do AIA, o número de adolescentes atendidos aumentou bastante desde que o programa foi implantado, em 1997.Um dos fatores que mais contribuem para isso é a propaganda boca a boca. “O jovem sai do posto falando que aqui existe um lugar só para adolescentes, que o atendimento é rápido, e volta trazendo colegas, namorados e namoradas”, conta.
Já em Sulacap, o PS Masao Goto investe na capacitação dos funcionários que estão na porta de entrada do posto. “É importante que todos os profissionais saibam ouvir e encaminhar o jovem para o atendimento”, diz Sandra Prado, assistente social.

Discussão de temas estimula o adolescente
Profissionais dos dois postos de saúde reconhecem a importância dos grupos de discussão para a formação de jovens mais conscientes e saudáveis, além de ser uma forma de atraí-los para as unidades. Nos grupos, são abordados temas como sexualidade, DSTs, práticas de contracepção, responsabilidade, violência, drogas e projeto de vida. Mais do que informar, esses debates favorecem a autonomia e a auto-estima dos jovens. “É recompensador ver as meninas conseguindo se colocar melhor diante de seus parceiros e buscando outros objetivos na vida que não seja engravidar precoce-mente”, diz Riva, pediatra do PS Madre Tere-as de Calcutá, que aponta ainda para a importância de trabalhar com a família: “Os jovens sentem falta do apoio dos pais nes-as fase e se ressentem de problemas no relacionamento familiar”.

Parceria com a educação é fundamental
No PS Masao Goto, a maior preocupação dos jovens é com o futuro profissional, como revela a assistente social Sandra. “A falta de recursos desses jovens e nossa, como instituição, leva a um sedentarismo muito grande”, diz ela. “Precisamos, com urgência, de uma parceria mais efetiva com a educação. Na zona oeste não há para onde encaminhar o jovem que quer fazer um curso de informática, de teatro ou musica. Muitos sonham com isso”.

Fala Jovem 

“Eu ouvia falar sobre camisinha e tenho vergonha de perguntar o que era. No posto, aprendi para que serve. Agora se eu for a uma festa e ficar com alguém já sei que tenho que usar camisinha”.
Daniel, 14 anos

“Eu e minha namorada participamos do grupo de planejamento familiar. Aprendemos que é preciso primeiro estudar bastante para depois começar a pensar em ter filho”.
Douglas, 19 anos

“O que eu mais gosto aqui é o grupo porque eles ensinam coisas diferentes do que eu aprendo na rua”.
Ronald, 15 anos

“Gosto de vir na psicóloga para desabafar e ouvir conselhos. É como se ela fosse da minha família”.
Amanda, 13 anos

“Tive um filho agora e não quero engravidar de novo. Quero participar do grupo de planejamento familiar para aprender um pouco mais sobre relações sexuais”.
Luciana, 16 anos

“Depois que eu participei do grupo de homens jovens, passei a ser mais responsável e a cuidar mais de mim”.
Erasmo, 17 anos

“Muitas pessoas pensam que posto de saúde é só para mulher, mas eu acho que é para todo mundo”.
Marcos, 11 anos

 

Luiz Carlos Moreno: Um gestor que apóia o atendimento dos adolescentes

Diretor do PS Madre Teresa de Calcutá, o pediatra Luiz Carlos Moreno fala nessa entrevista sobre o sucesso e os desafios do Programa de Atendimento Integral ao Adolescente (AIA).


Existe um profissional ideal para trabalhar com adolescentes?

Dr. Moreno: Apesar de achar que, entre os profissionais médicos, o pediatra é o que mais reúne requisitos para lidar com adolescentes, pelo fato de estar acostumado a lidar com a família e com questões ligadas ao desenvolvimento, isso não é uma regra. As características do profissional devem ser respeitadas. Uma pessoa aberta ao diálogo, por exemplo, se identificará melhor com o trabalho. Mas não basta gostar de adolescente, tem que se qualificar para o trabalho.
Como os profissionais do AIA se prepararam para esse trabalho?
Com capacitação e atualização constante. Se um profissional precisa se ausentar do posto para assistir um curso ou seminário, recebe meu apoio. No seu retorno à unidade, ele vai poder aplicar e repassar o que aprendeu. Isso é um estímulo para o profissional e uma forma dele se sentir mais seguro nas suas condutas.
Que desafios um programa como AIA enfrenta?
A consulta de um adolescente, freqüentemente mais longa do que o habitual, e a necessidade de paradas periódicas para reuniões de equipe são desafios que o gestor tem que enfrentar para investir na qualidade do atendimento, que é nossa prioridade.

 

“Nunca perco a chance para uma boa conversa”

Conceição Miranda é enfermeira do PS Flávio Couto Vieira, em Anchieta, e se tornou profissional de referência para os jovens da região. “Nunca perco a chance de uma boa conversa”, diz ela. “A maioria dos meninos entra aqui para pegar camisinha e eu aproveito para dar orientações sobre higiene, drogas e vejo se ele precisa de atendimento médico. Mas o que eles mais querem é falar sobre sexualidade”. Nesse ponto, os adolescentes encontraram a pessoa certa. “Não tenho o menor constrangimento, falo sobre tudo com os meninos e dou bronca quando é preciso. Mas não dá para ser repressiva, tem que ter jogo de cintura”. Quando precisa encaminhar algum jovem para outra unidade de saúde, Conceição manda, junto com a guia de referência, um pedido para que ele seja atendido o mais breve possível. “Tenho que facilitar a vida do menino, senão ele acaba desistindo de cuidar da saúde”.

Eu aposto
“Fui uma adolescente que freqüentou grupos de educação e saúde, em comunidade carente. Minha escolha profissional teve a ver com essa experiência e hoje me sinto vitoriosa por proporcionar a outros adolescentes esse caminho”.
Sandra Prado, assistente social do PS Masao Goto

 

 

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