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Saber Viver » Saber Viver n.17

08/2002

Uma vacina contra a Aids

Uma vacina preventiva ou um produto capaz de prevenir a Aids em pessoas infectadas.
A ciência avança e todos nós podemos participar desse processo

A maior esperança para o fim da Aids no mundo é o descobrimento de uma vacina. Hoje, uma série de pesquisas acontece em vários países na busca de um produto que seja realmente eficaz no combate ao HIV. “Atualmente, existe mais investimento em pesquisa com vacinas do que em qualquer outra época”, afirma o infectologista Mauro Schechter, investigador principal do Projeto Praça Onze (Centro de Avaliação de Vacinas anti-HIV da Universidade Federal do Rio de Janeiro), que testa atualmente duas vacinas anti-Aids em voluntários na capital carioca (Leia na página ao lado).

O primeiro teste de vacinas contra a Aids foi feito em 1987, nos Estados Unidos. A partir daí, segundo o Boletim Vacinas Anti-HIV do Grupo de Incentivo à Vida (ONG de São Paulo), mais de 30 produtos foram testados, envolvendo cerca de mil voluntários na Europa e nos Estados Unidos. Inúmeros testes acontecem agora no mundo, mas nenhum em etapa conclusiva.

Vacina preventiva ou que evite que a pessoa infectada tenha Aids
Houve vários altos e baixos na crença científica sobre a possibilidade de se construir uma vacina contra a Aids. “Embora não seja fácil, conseguir uma vacina contra a Aids hoje é cientificamente viável”, afirma Artur Kalishman, coordenador do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, cuja sede será em breve um centro de pesquisas em vacinas anti-HIV. Segundo ele, é possível conseguir, através das pesquisas que estão em andamento, vacinas que tenham o papel de prevenir que pessoas se infectem ou que as já infectadas desenvolvam a doença. “Se conseguirmos uma vacina que evite que a pessoa infectada fique doente de Aids, já é um grande avanço, principalmente se esse produto for barato e de fácil acesso aos países do Terceiro Mundo”, diz o coordenador. Porém, todo o processo que envolve a descoberta de uma vacina é lento e imprevisível. Existem várias etapas na testagem desses produtos (Ver quadro nesta página) e, durante a pesquisa, pode-se concluir que a vacina não fará o efeito esperado. Por isso, ninguém pode afirmar quando uma vacina contra a Aids será descoberta. “É muito bom termos investimentos para pesquisas em vacinas. Mas é muito importante que a população saiba que apenas esses investimentos não garantem que conseguiremos descobrir uma vacina contra a Aids em breve”, completa Mauro Schechter.

Porque uma vacina ainda não foi descoberta
Geralmente, uma vacina é feita utilizando partes do vírus que você quer combater. Essas partes não são capazes de infectar a pessoa vacinada, mas são suficientes para que as células de defesa percebam a presença desse vírus e estimulem o organismo a produzir defesas contra ele. Assim, se um dia essa pessoa for infectada, o seu organismo estará preparado para responder à infecção. No caso das vacinas contra o HIV, não são utilizadas partes do vírus, mas sim cópias de partículas do vírus. Dessa forma, pode-se evitar completamente que uma pessoa venha a se infectar através do uso da vacina.
Um dos empecilhos para se descobrir uma vacina contra a Aids é que o HIV ataca exatamente o sistema imunológico que se pretende fortalecer com a vacina. Ou seja, você poderá fortalecer algo que será atacado pelo vírus de qualquer forma. Um caminho é entender como funciona o organismo de algumas pessoas que, mesmo expostas ao vírus, não se contaminam. O problema é que os cientistas ainda não descobriram o que ocorre nesses organismos. “No caso do HIV, além de atacar as células imunológicas, ele tem o poder de sofrer mutação e acoplar algumas de suas partes em determinados locais e se esconder. Existem doenças que também atacam o sistema imunológico, mas ele consegue reagir a elas. No caso do HIV, não”, explica Artur.

Voluntários: a participação da sociedade é fundamental

Todos nós sonhamos com uma vacina anti-Aids. Mas, além de desejá-la, a sociedade pode (e deve) contribuir para que ela seja descoberta o mais rápido possível. O papel do voluntário – aquela pessoa que se prontifica a ser vacinado pelo produto que está sendo pesquisado – é fundamental para que qualquer estudo siga a diante.

Desde novembro de 2001, no Rio de Janeiro, o Praça Onze (Centro de Avaliação de Vacinas anti-HIV da UFRJ) está testando dois produtos candidatos à vacina de prevenção à infecção pelo HIV: o MN rgp120 e o Alvac 1452. O Praça Onze já recebeu mais de 300 pessoas interessadas em serem voluntárias. Mas, até junho, somente 17 foram vacinadas. Isso porque existe uma série de condições, relacionadas ao comportamento e à saúde da pessoa, para que ela se torne voluntária. Uma delas é que tanto a pessoa quanto o seu parceiro (ou parceira) não tenham feito sexo com nenhuma outra pessoa nos últimos seis meses. “Queremos pessoas que tenham baixo risco para a aquisição do HIV porque essas vacinas em estudo ainda não têm a capacidade de proteger as pessoas da infecção. Nesta fase, observa-se no produto a possibilidade de estimular as defesas do organismo”, explica Mônica Barbosa, coordenadora de Educação Comunitária do Projeto Praça Onze.

Diante disso, o Praça Onze necessita de mais voluntários de 18 a 60 anos que sejam soronegativos para o HIV. É importante destacar que não há nenhum risco de uma pessoa ser infectada pelo HIV ao receber essas vacinas em estudo. “A descoberta de uma vacina contra a Aids, mesmo que não seja 100% eficaz, é a alternativa mais barata para se conseguir controlar essa epidemia que está dizimando povos de alguns países do mundo. E a comunidade científica só chegará a uma vacina se a sociedade se comprometer com isso. Infelizmente, no nosso caso, apesar de todas as pessoas que já se comprometeram, esse número ainda é insuficiente. Nós precisamos de mais gente”, alerta Mônica Barbosa.
As pessoas que estiverem interessadas em contribuir para uma das descobertas mais importantes para a humanidade, devem entrar em contato com o Projeto Praça Onze pelo telefone (21) 2273-9073.

Vacinas – etapas da pesquisa

Etapa pré-clínica – Fase em que o produto é pesquisado em laboratório e testado em animais;
Fase I – Quando o produto é liberado para ser testado em seres humanos. Geralmente 100 ou menos voluntários participam do processo que avalia dados de segurança (efeitos colaterais que o produto pode causar);
Fase II – Um número maior de voluntários participa desta fase (de 150 a 300). Confirmam-se dados de segurança e verifica-se se a vacina tem o poder de gerar resposta imunológica no organismo;
Fase III – Além de dados de segurança, esta fase verifica se o produto é eficaz, ou seja, se uma pessoa vacinada fica protegida contra a doença. Geralmente isso é feito em vários países do mundo com milhares de voluntários;
Fase IV – Quando o produto obtém sucesso em Fase III, ele é liberado para ser usado pela sociedade, mas mesmo assim ainda fica sob observação dos cientistas.


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