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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.19

06/2010

Velhice, sexualidade, prazer e AIDS

Beatriz Pacheco *

Todos querem viver muito, porém ninguém quer envelhecer. E isso é um paradoxo. Usamos palavras “politicamente corretas”: idoso, melhoridade, terceira idade, e tudo isto para evitar a dura realidade: quem vive muito fica, efetivamente, “velho”.

Bem, para nós, mulheres, o “monstro” da velhice, aparentemente é mais dramático. Culturalmente, à mulher cabe ser bonita, elegante e com uma figura agradável ao olhar masculino. Mas, a velhice nos tira o viço juvenil, modifica nosso corpo, muda nossos hormônios e nos sentimos, então, absolutamente vencidas…envelhecemos. Por que ninguém nos prepara para isso? Por que o tabu de falar no envelhecimento? Somos tão preparadas para a menarca, e os profissionais da área da saúde não nos preparam para a menopausa. Por que essa negação em relação à inevitável velhice?

Nos últimos anos, me deparei com uma negação maior, relativa à velhice. Depois dos 50 anos, as pessoas sequer nos veem como sexuados… Como se, acabada a beleza física, cessassem as nossas funções sexuais. E as fantasias e mitos sobre esta realidade, nos levaram a uma situação muito grave. Por não nos vermos como sexuados, sequer somos objeto de trabalhos continuados de prevenção às DST e às infecções pelo HIV! E a nossa realidade de cidadãos e cidadãs, vivos, sexualmente ativos e vulneráveis àsdoenças daí decorrentes é absolutamente esquecida nos consultórios médicos. Os médicos conversam bastante com “as Vovós”, sobre seus hormônios, discutem a necessidade, ou não, da reposição destes, fazem avaliações clínicas e laboratoriais de nossa saúde, de toda ordem. Mas alguém já ouviu algum profissional da área da saúde falar a nós,“Vovós”, que, se usarmos gel íntimo em nossas relações sexuais, restabelecemos o prazer sexual que tínhamos na juventude? Alguma senhora de mais de 50 anos (ou de mais de 60 anos, como eu), já ouviu de seu médico a pergunta: “a senhora usa preservativo nas suas relações sexuais”? Tenho certeza que não! E por quê? Estamos vivas, estamos sexualmente ativas e, portanto, vulneráveis às DST e ao HIV! Mas, estes médicos são jovens e, também eles, em seu imaginário, nos veem como seres já não sexuados. E seria tão importante que conversassem conosco sobre nossa sexualidade! Que nos ajudassem a vencer os tabus que nossa geração traz, das educações rígidas de antigamente, e que nos ajudassem a sermos mais felizes. Mesmo idosas, temos direito ao prazer. Mesmo idosas, temos direito de ser sexualmente ativas, sem sermos motivo de chacota dos jovens. E isso tudo é tão importante para nós! Para os nossos companheiros da jornada da vida, os homens, já surgiram medicamentos“revitalizadores” de seu vigor sexual. Então, porque ainda assim não cuidam da nossa saúde sexual e nos ensinam a usar os insumos adequados para que as pessoas da nossa idade sigam no exercício sexual ativo, prazeroso, feliz e protegido? Muitas vezes, a ereção de nosso amado parceiro não é bem completa, e fica bem difícil o uso do preservativo masculino, fazendo com que ele não o queira usar. E assim, ficamos expostas às doenças. E a nossa geração não sabe fazer esta negociação, pois fomos criadas muito submissas. Por que, então, os profissionais da área da saúde não nos ensinam a usar o preservativo feminino? Tudo seria tão mais fácil e mais saudável…

Aí vocês vão me perguntar: “Mas, Beatriz, porque tanta insistência neste assunto”? Muito simples, meus queridos amigos, sou uma velha senhora (faço questão de não usar os eufemismos…), tenho 61 anos, já encerrei meu ciclo reprodutivo, mas não encerrei minha sexualidade e nem minha vida ativa, mas, como ninguém conversou comigo sobre tudo isso, hoje eu sou uma velha senhora VIVENDO COM HIV! Por favor, não deixem que isso continue acontecendo! A rejeição à velhice já é muito grande, não deixem acrescer a isso a rejeição pela presença do HIV em nossos corpos! Conversem sobre sexualidade com os idosos… A gente merece isso!

* Advogada, representante legal e membro do Colegiado Gestor da ONG RNP+/Núcleo Porto Alegre. Membro fundador do Movimento Latino Americano e Caribenho de Mulheres Positivas. Foi membro fundador do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas. Ativista, com foco nas áreas de prevenção da Aids no local de trabalho, sexualidade e HIV/Aids na terceira idade e cidadania positiva das mulheres. E-mail:beatrizpacheco@terra.com.br

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