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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.18

03/2010

Vencendo preconceitos

Muitos serviços de saúde ainda não compreendem a importância de oferecer tratamento igual, independente da forma como o paciente exerce sua sexualidade

Um atendimento baseado no respeito pelas diferenças deveria ser inerente à postura de todo profissional de saúde. Mas nem sempre é. Ainda existe muito preconceito quando o assunto é diversidade sexual. “Sexo ainda é tabu em nossa sociedade e, sem uma discussão madura e aberta sobre a sexualidade humana, a perspectiva de mudança torna-se pequena”, afirma Mateus Westin, infectologista e Coordenador Municipal do Programa de DST/Aids de Belo Horizonte- MG. Para Mateus, o preconceito é o centro do problema. “Destitui o indivíduo de seu real valor e direitos como ser humano”, diz o infectologista.

AMBULATÓRIO EM SÃO PAULO INCLUI TRAVESTIS E TRANSEXUAIS NO SUS
Pioneiro na América Latina, o Ambulatório de Saúde Integral de Travestis e Transexuais do CRT DST/Aids-SP oferece assistência integral a travestis e transexuais, respeitando a identidade de gênero desta população. As pacientes são atendidas por seus nomes sociais, aproximando o ambulatório de seu objetivo principal: incluir travestis e transexuais no SUS.

Referência

Para a coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids-SP, Maria Clara Gianna, o centro, inaugurado em junho de 2009, já se tornou referência para a saúde pública. “Elabora protocolos clínicos, desenvolve e avalia tecnologias e modelos assistenciais e promove atividades integrando movimentos sociais”, se orgulha.

Protocolo
Em janeiro, o ambulatório venceu um grande desafio com a criação, por parte da Secretaria do Estado de São Paulo, do 1º protocolo para o atendimento de travestis do país. O documento define, entre outros procedimentos, dosagens em relação ao uso de hormônios e tratamento das complicações decorrentes do uso de silicone industrial. Essas são as demandas mais recorrentes no centro.

Posturas individuais
“Ainda que muitos serviços estejam estruturados de forma a humanizar o atendimento, a começar pelo respeito à diversidade sexual, esbarra-se em posturas individuais menos felizes relacionadas aos valores pessoais e à criação de cada um”, afirma Anna Christina Pinheiro, psicóloga e referência técnica de prevenção da Coordenação Municipal de DST/Aids de Belo Horizonte – MG.

Para o psiquiatra e gerente assistencial Helian Nunes, do Hospital de Ensino Instituto Raul Soares, em Belo Horizonte, deixar que os preconceitos atrapalhem a relação entre profissional e usuário é não saber lidar consigo mesmo e com a diferença cotidiana. “É tentar ignorar ou menosprezar as individualidades”, afirma.

Usuários discriminam
Por causa da discriminação, determinados grupos acabam procurando menos os serviços de saúde. “Os transexuais, travestis, homos sexuais e profissionais do sexo ainda têm dificuldades para conseguir um espaço onde recebam a atenção necessária para resolver seus problemas de saúde”, afirma Helian.

Muitas vezes o preconceito vem dos próprios usuários que frequentam o mesmo serviço. “É como se outros usuários, mesmo sofrendo das mesmas doenças, espelhassem essa sociedade que exclui até no local dos atendimentos em saúde”, explica.

Atendimento isento
Romper com tabus e preconceitos exige o envolvimento de vários segmentos da sociedade. O movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bisexuais e Tran sexuais) vem, aos poucos, ganhan do respeito e visibilidade. O infectologista Mateus e a psicóloga Anna Christina citam algumas conquistas, como a I Conferência Brasileira LGBT e o Manual de Comunicação LGBT, que acaba de ser publicado pela Associação Brasileira
de Gays, Lésbicas, Bisexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).

Para o psiquiatra Helian, cabe à sociedade preparar os profissionais para um atendimento isento de preconceitos. “A ideia é que o Estado e os diversos setores, como a escola e os meios de comunicação, incorporem conteúdos que revitalizem a visão do ser humano por todos, beneficiando-se com o aproveitamento das diretrizes que formam o discurso dos direitos humanos e da vida em uma sociedade diversificada e globalizada”, explica.

O psicólogo Ricardo Martins, do Centro de Refe rência e Treinamento (CRT) de São Paulo, acredita na criação de espaços em que o profissional
possa manifestar suas crenças. “Os serviços devem adotar práticas rotineiras como discussão de caso, para que se possa dar oportunidade para os profissionais expressarem suas dificuldades, muitas vezes ligadas aos valores envolvidos”, sugere.

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