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Saber Viver » Saber Viver n.25

12/2003

Vivendo cerca de 20 anos com HIV/Aids

Uma boa maneira de perceber as transformações que ocorreram com a epidemia no país é conhecer histórias de pessoas que vivem há cerca de 20 anos com HIV/aids. Por isso, a Saber Viver traz cinco histórias bem diferentes que possuem uma característica em comum: todos amam viver e reconhecem que estão muito melhor agora, não apenas por causa dos medicamentos, mas pela capacidade que tiveram de transformar suas vidas para melhor.

“Sou um lutador que acredita na utopia de mudar o mundo”
José Araújo, 46 anos, descobriu há 18 que estava infectado pelo HIV.
Quando eu soube que estava com o HIV, tive a certeza de que minha vida tinha entrado em contagem regressiva.
Na época, por ser uma doença recém- chegada ao Brasil, não existia qualquer medicamento para combatê-la. Eu me sentia o único infectado.

Aprendi nesses anos a ser um lutador que acredita na utopia de mudar o mundo, desde que começemos a mudanca por nós mesmos.

O HIV trouxe para mim a consciência de que, por pior que seja uma doença, o preconceito supera, em estrago, a vida humana. Descobri com meus amigos um antídoto para combatê-lo: lutar e não ter medo de colocar a luta como parte do tratamento para vivermos bem.

A chegada de uma grande quantidade de medicamentos permite que tenhamos uma vida com qualidade. Hoje, podemos voltar a acreditar nos nossos sonhos e ter a certeza que a história de nossas vidas poderá continuar sendo escrita. Porém, combater o preconceito deve ser um caminho de luta que não pode ser amenizado.

Acho que, nos próximos 20 anos, temos que continuar nossa luta para que menos pessoas se infectem e mostrar à sociedade que os medicamentos e uma possível cura devem ser para todos, sejam pessoas de países ricos ou pobres, sem nenhuma forma de exclusão, como já vem acontecendo no mundo. ”

“Amo a vida e tenho certeza que a vida me ama”
Adriana Paixão Bastos, 38 anos, descobriu há 20 que estava com HIV.

Fui infectada pelo meu noivo há 20 anos, que era hemofílico e já faleceu, pois à época não existia o coquetel com anti-retrovirais. Quando descobri, é claro, fiquei assustada. Ou melhor, eu era totalmente ignorante sobre o assunto.

Quando perguntei ao médico se iria morrer, ele me respondeu: “É claro. Mas você pode morrer de uma outra doença, de um acidente, levar um tiro ou ser atropelada”. Confesso que dali pra frente realmente não tive dúvidas de como conviver com o HIV: fui em frente. Continuei trabalhando, estudando, terminei a faculdade, me casei por três vezes, e todos sabiam da minha soropositividade. Não tenho filhos por opção. Tenho uma vida afetiva e sexual ativa, sem nenhum preconceito. Costumo dizer que, primeiro, temos que nos despir de qualquer tipo de preconceito. Amo a vida e tenho certeza que a vida me ama. Fui abençoada, nunca fui a um psicólogo ou analista e quando me perguntam o por quê, eu respondo: não tenho tempo. Sou voluntária do Grupo Assistencial SOS Vida de Petrópolis (RJ), do qual me considero uma felizarda por fazer parte. Às vezes penso que cheguei tarde ao SOS, mas como me disse um amigo do SOS: ‘você chegou na sua hora, no seu tempo’. Acredito nisso e por isso estou aqui. Posso afirmar e confirmar a vocês que sou feliz; amo ser o que sou e como sou: para sempre positiva.”

“Hoje me sinto otimamente bem”
Rosalina Gomes Ferreira, 55 anos, se descobriu soropositiva há 16 anos.

Sou hemofílica e descobri que era soropositiva porque eu estava tendo muitas doenças. Na época, a revelação do diagnóstico foi um choque. O médico me disse que eu estava infectada pelo vírus da aids e ponto final. Eu guardei aquilo só para mim. Demorei muito tempo para falar com as minhas duas filhas.

Eu trabalhava fora e tinha uma vida ativa. Com o tempo, eu fui me cansando. Quando eu comuniquei aos meus patrões, eles me dispensaram. Como eu não trabalhava de carteira assinada, fiquei sem nada. Naquela época, ninguém me falou sobre os meus direitos como soropositiva. Eu fiquei em casa, sofrendo sérios problemas de saúde. Na época, eu só me tratava com gamaglobulina.

Mas hoje eu acho que muita coisa mudou em mim: a minha cabeça, o meu viver. Depois que eu comecei a tomar os remédios, me senti mais forte.

Antes, eu não acreditava que conheceria meus netos. Hoje, tomo minha medicação com tranqüilidade, vou à casa das minhas filhas, passo o dia com os meus netos. Sonho em vê-los criados, tendo uma vida melhor do que a que eu tive. Acho que superei essa doença e me sinto otimamente bem.

“O futuro é uma busca constante”
Hugo Hagstrom, 42 anos, descobriu o HIV há 18.

Eu estava com 24 anos e imaginava que tinha a vida sob meu controle, quando recebi o resultado positivo para o HIV, em 1985. Senti muita vergonha e medo. Não havia mais motivo para sonhar, para amar, para construir e principalmente, para viver. Lentamente fui perdendo minha saúde física e mental. Eu estava me transformando em um VÍRUS.

Em 1997, depois de uma longa internação, vi que todas as pessoas ao meu lado acreditavam na vida, na MINHA VIDA. Minha vontade de viver começou a voltar. Percebi que eu não era um vírus, mas sim uma pessoa que teve o privilégio de renascer.

Passei a fazer parte da Organização Não-Governamental Grupo de Incentivo à Vida (GIV), e hoje milito na luta contra a aids. Sou um militante da vida.

Sei que o direito ao futuro deve ser uma busca constante. Espero que o sexo seja visto como vida e a prevenção à aids como a arma de que o nosso planeta mais precisa neste momento, independentemente de valores culturais, religiosos ou econômicos.”

“Falta tempo para fazer tudo que pretendo”
Marcelo Barcelos, 45 anos, descobriu o HIV há 14.

Quando eu soube que era soropositivo senti o chão cair sob meus pés. Nessa época, não existia muita informação sobre a aids. Mesmo entre os médicos, havia muita ignorância e preconceito. O AZT, único remédio contra o HIV que havia, era importado e eu não tinha como pagá-lo. Meu sentimento de derrota era absoluto.

Minha sorte começou a mudar quando o dono da empresa onde eu trabalhava se dispôs a pagar minha medicação. Isso aconteceu até o Ministério da Saúde começar a distribuir gratuitamente os remédios.

Assim que eu recuperei minha saúde, comecei a sentir um tédio muito grande. Eu precisava voltar a trabalhar. Como estava difícil arrumar emprego de fato, comecei a trabalhar voluntariamente no projeto Rio Buddy da ONG Pela Vidda-RJ.

Oferecer a sua mão, a sua força, para alguém que está na pior, como eu estive um dia, e depois ver essa pessoa se reerguer é uma sensação indescritível. Hoje, eu faço parte da coordenação do Rio Buddy.

Acho que em função da aids eu mudei minha maneira de ver a vida. Hoje eu penso em me aprimorar profissionalmente. Quero concluir me curso de direito e aprender inglês. Falta tempo no meu dia-a-dia para fazer tudo que eu pretendo.”

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