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Saber Viver » Saber Viver n.19

12/2002

XI Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids

TÁ TUDO DOMINADO?
Encontro de pessoas vivendo com Aids questiona se a epidemia está sob controle

Organizado pelos Grupos Pela Vidda/RJ e Niterói, o XI Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids, conhecido como Vivendo, foi realizado nos dias 6, 7 e 8 de setembro no Rio de Janeiro e teve como sub-tema a pergunta: “Tá tudo dominado?”. A expressão, muito difundida nos bailes funk dos subúrbios do Rio e hoje conhecida por todo o país, traduz o desejo de refletir sobre a situação em que hoje se encontram as pessoas afetadas pela Aids. Durante o encontro, profissionais da área da saúde, ativistas de Organizações Não-Governamentais e soropositivos abordaram os diversos aspectos da epidemia, identificando dificuldades e apontando soluções. Em todas as falas, uma certeza: não está tudo dominado. Ainda existem muitos problemas a serem superados.

Confira a seguir os depoimentos de alguns participantes e reflita sobre o que ainda falta para que a Aids seja considerada realmente uma doença sob controle.

Serviços de saúde pública precisam melhorar 
“Para dominar a Aids, é preciso que o paciente tenha acesso a serviços de saúde de qualidade”, diz a professora da Faculdade de Medicina da USP, Maria Ines Battistella Nemes que, em 2001, coordenou uma pesquisa para avaliar a qualidade do serviço de saúde brasileiro no atendimento aos portadores do HIV/Aids. A avaliação foi feita através de um questionário aplicado em 332 serviços de saúde de sete estados (SP, RJ, PA, MA, CE, MS e RS) que abordou todos aspectos da infra-estrutura e da organização dos ambulatórios.

Entre os serviços de saúde pesquisados, 76 (24% do total) foram considerados de boa qualidade e 80 (25% do total) estão entre os que oferecem serviços de pior qualidade. Entre esses dois grupos estão 166 unidades (51% do total) com qualidade média.

Maria Ines explica que, para que o atendimento prestado em um serviço de saúde seja considerado de qualidade, alguns pontos devem ser atendidos: “A atenção ambulatorial à Aids exige uma equipe multi-profissional, integrada e articulada, e também recursos humanos e materiais suficientes para realizar o trabalho”, afirma. Para a pesquisadora, o atendimento à Aids nas unidades de saúde pode melhorar. “É preciso investir nos profissionais de saúde, criar parâmetros de organização de trabalho que os serviços possam seguir e utilizar modos de monitoramento e avaliação desses serviços”, conclui a pesquisadora.

Maria Ines Battistella Nemes, coordenadora da equipe Qualiaids/FMUSP

Maior empenho político
“Já virou um culto, a eterna comemoração da eficácia das drogas e da eficiência da distribuição gratuita de medicamentos. Mas, apesar de dados incontestáveis que comprovam que, nos últimos anos, a mortalidade caiu pela metade e milhares de internações foram evitadas, há ainda muitas pessoas – cerca de 10 mil por ano – morrendo por causa da Aids no Brasil. E por quê? Humanizar esse debate é o ponto de partida. O otimismo dos números não pode esconder que por trás de cada morte em decorrência da Aids tem sempre um sonho desmoronado; um projeto de vida interrompido; um amigo, um companheiro ou uma mãe que morre junto, de saudade.

É preciso assegurar maior controle social sobre as políticas de Aids, garantir que os profissionais de saúde sejam permanentemente capacitados para tratar de forma adequada os pacientes, acabar com a longa e absurda demora na realização de exames diagnósticos, investigar e punir casos de omissão e negligência no atendimento, dar mais atenção aos efeitos colaterais dos remédios, garantir acesso imediato a novos medicamentos, manter programas de adesão ao tratamento em todos os serviços que atendem HIV e Aids, dar maior atenção à população miserável e excluídos que vivem com Aids, dentre outras ações”.

Mário Scheffer, membro voluntário do Grupo Pela Vidda São Paulo

As dificuldades do tratamento
“Sem dúvida, com a distribuição gratuita dos medicamentos que fazem parte da terapia contra a Aids e a conseqüente queda no número de internações hospitalares e mortes relacionadas à Aids, houve, no Brasil, um grande avanço na luta contra o HIV. Mas não está tudo dominado. Uma das principais razões é a dificuldade dos pacientes em seguir rigorosamente as prescrições médicas dos anti-retrovirais, atitude fundamental para que o tratamento tenha resultados positivos.

A dificuldade em aderir a terapias longas é comum em pacientes crônicos. Os motivos apresentados são problemas do cotidiano, como esquecimento, dificuldade em conciliar os horários dos remédios com a hora da alimentação, do trabalho e do lazer. Sem falar nos problemas causados pelos efeitos colaterais dos medicamentos.

Portanto, para garantir o sucesso do tratamento contra a Aids, é preciso simplificá-lo. Diminuir a quantidade de comprimidos, de tomadas diárias e ter maior controle sobre os efeitos colaterais são as atuais metas da terapia anti-retroviral. A falta de adesão ao tratamento deve ser encarada não só como um problema dos pacientes, mas como um problema de saúde pública”.

Roberto Zajdenverg, médico infectologista e coordenador da Unidade de Testes Terapêuticos do Projeto Praça Onze/UFRJ.

Com a palavra, os soropositivos
“O atendimento ambulatorial para o paciente HIV positivo só funciona de segunda a sexta, durante o dia. E à noite? E nos finais de semana? A maioria dos meus amigos que já se foram morreu em um fim de semana”.

Wilson Merege, 43 anos, presidente do Grupo Pela Vidda/SP e soropositivo há 6 anos

“Os médicos que ficam de plantão nas emergências dos hospitais não sabem o que fazer com o doente de Aids. O paciente é quem tem que tranqüilizá-lo e informá-lo sobre a Aids”. 

José Carlos Ferreira (Zeca), 43 anos, membro da diretoria do Pela Vidda/SP e soropositivo há 14 anos

Escreva para gente dizendo o que você acha que falta para que a vida com o HIV seja mais tranqüila. Para que possamos dizer com convicção: Tá tudo dominado!

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